Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 105 - Dezembro de 2004


UM POEMA DE SYLVIA PLATH

Nota e tradução de Marcelo J. Fernandes

Sylvia Plath (27 de outubro de 1932 – 11 de fevereiro de 1963) poetisa, escritora e ensaísta americana, tendo despertado, ainda menina, como uma brilhante promessa, publicando pela primeira vez aos oito anos. Sylvia seguiu tentando publicar seus poemas e contos em revistas americanas e obteve algum sucesso. Em seu primeiro ano no Smith College, cometeu sua primeira tentativa de suicídio, detalhado em sua autobiografia, The Bell Jar. Na ocasião, esteve internada num manicômio; recuperou-se a tempo de concluir o ensino médio com louvor.

Em seguida, Sylvia ganhou uma bolsa Fulbright para a Universidade de Cambridge, onde ela deu prosseguimento a sua poesia. Lá conheceu o poeta inglês Ted Hughes, com quem se casou em 1956. Sylvia e Ted passaram de julho/57 a outubro/59 vivendo nos EUA, onde a poetisa lecionou no mesmo Smith College, de Northampton. Mudaram-se para Boston, em seguida, onde Sylvia assistiu a um ciclo de seminários de Robert Lowell. Este curso influenciou profundamente sua obra.

De volta à Inglaterra, o casal viveu em Londres por um breve período e então se estabeleceu numa pequena vila em Devon chamada North Tawton. Em 1960, Sylvia publicou sua primeira antologia, The Colossus. Em fevereiro de 1961, sofre um traumático aborto, tema de vários poemas dessa época. O casamento atravessa uma série de dificuldades e resolvem se separar menos de dois anos após o nascimento de sua primeira filha, Frieda.

Sylvia voltou a Londres com seus dois filhos (agora também com Nicholas) e alugou uma casa que pertencera ao grande poeta W.B. Yeats, fato considerado por ela um bom presságio. Solicita, então, em juízo, o divórcio. O inverno de 1962/63 tornou-se, assim, o mais duro de todos. Em 11 de fevereiro de 1963, Sylvia suicidou-se em sua cozinha, inalando gás. Foi enterrada no adro da igreja de Heptonstall, West Yorkshire.
As primeiras obras de Sylvia Plath, reunidas em seu primeiro livro, Colossus, foram razoavelmente recebidas pela crítica, tendo sido apontado como comum e carente do teor dramático de seus trabalhos posteriores. Debate-se ainda acaloradamente o quão seus escritos teriam sido influenciados pela “mão” de Hughes. Uma boa parcela de artigos, ensaios e livros têm abordado esse tema. É evidente, em seus diários e cartas, que ela respeitava e considerava profundamente o talento de Ted, mesmo após o término de seu casamento.

Os poemas em Ariel marcam a sua saída da fase inicial para uma área notadamente mais confessional da poética. É provável que os estudos com Robert Lowell, que enfatizava o subjetivismo, tenham atuado nesta mudança. A publicação de Ariel foi impactante, visto que descrevia, com detalhes, o declínio rumo à enfermidade mental.
Outras controvérsias envolveram a publicação, devido ao fato de seu marido controlar a publicação de sua obra. Ele admitiu abertamente ter destruído parte dela. Alguns críticos, freqüentemente rotulados de feministas, embora nem sempre, acusaram Hughes de tentar controlar as publicações para seus fins pessoais. O poeta, por sua vez, negou enfaticamente este fato.

Embora haja um grande número de crítica e biografia publicada após a sua morte, a questão a respeito da obra de Sylvia caracteriza-se por um embate entre os que estão a seu lado e os que tomam partido de Hughes. Um traço que demonstra o nível de rancor e amargura dos “desafetos” de Hughes é o fato da sepultura de Sylvia ter sempre o sobrenome Hughes raspado.

Duas pequenas antologias, publicadas com os títulos Crossing the water e Winter trees causaram grande sensação no meio literário e continham um significativo número de poemas que levou a uma reconsideração de sua reputação. O lançamento de The collected poems (1981, póstumo), venceu o Prêmio Pullitzer em poesia em 1983. Ainda não se sabe se uma nova leva de poemas inéditos virá à tona.

MIRROR

I am silver and exact. I have no preconceptions.
What ever you see I swallow immediately
Just as it is, unmisted by love or dislike.
I am not cruel, only truthful—
The eye of a little god, four-cornered.
Most of the time I meditate on the opposite wall.
It is pink, with speckles. I have looked at it so long
I think it is a part of my heart. But it flickers.
Faces and darkness separate us over and over.
Now I am a lake. A woman bends over me,
Searching my reaches for what she really is.
Then she turns to those liars, the candles or the moon.
I see her back, and reflect it faithfully.
She rewards me with tears and an agitation of hands.
I am important to her. She comes and goes.
Each morning it is her face that replaces the darkness.
In me she has drowned a young girl, and in me an old woman
Rises toward her day after day, like a terrible fish.

ESPELHO

Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.
O que quer que veja é tragado imediatamente
Como é, desembaçado pelo amor ou antipatia.
Não sou cruel, apenas sincero —-
O olho de um pequeno deus, quadrangular.
A maior parte do tempo medito sobre a janela de frente.
É rosa, com manchas. Olho-a tanto que
Acho que é parte do meu coração. Mas tremula.
Rostos e escuridão nos separam mais e mais.
Agora sou um lago. Uma mulher se debruça sobre mim,
Buscando em minhas margens o que ela normalmente é.
Então volta-se para aqueles falsos, as velas ou a lua.
Vejo suas costas, refletidas fielmente.
Ela me recompensa com lágrimas e aceno de mãos.
Sou importante para ela. Ela chega e sai.
A cada manhã é sua face que rende a escuridão.
Mergulha em mim uma menina e uma velha
Em mim se levanta em sua direção, dia após dia,
Como um peixe terrível.