Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 105 - Dezembro de 2004


MERCADO DE ROSAS

Gerson Valle
poeta, membro do conselho editorial de Poiésis.

O dr. Mário Celso ainda se achava tenso logo após o término do seminário que presidira sobre “Odontologia Holística” num congresso em Brasília. Desde junho vinha se preparando para aquela apresentação em dezembro. Mas - coisa complicada! -, não conseguiu convencer de sua cientificidade a seus pares. Tal seminário tinha sido programado como o último do congresso, para que não atrapalhasse o cerne mais técnico dos outros temas, um “extra” meio exótico, possibilitando uma amena despedida no convívio dos colegas. Deles só restavam, de Brasília, uns poucos dentistas que não vieram se desculpar com a impossibilidade de ficar devido a algum atendimento urgente. Dos outros estados, um número menor ainda de representantes de entidades que ainda bisbilhotavam a “novidade”, para não serem acusadas de negligência, caso aparecesse alguma matéria publicada no exterior, e lá fosse aclamada a “teoria” do patrício... Os outros desculparam-se: tinham de pegar o avião mais cedo. Em todos, percebia um ar de mofa enquanto fazia suas demonstrações cheias de orientalismos religiosos e filosóficos, que acabou em franca gozação mesmo, no debate aberto aos participantes no final. Ficou esgotado! Tanto que não quis retornar ao Rio no fim do dia. Primeiro, para evitar pegar um mesmo avião dos colegas que para lá retornavam. Preferia passar algum tempinho, pelo menos, sem ter de revê-los. Segundo, porque achou que poderia relaxar na noite de Brasília. Talvez um passeio pelo comércio, jantar uma leve saladinha, tão a seu gosto, ou apenas dormir no quarto de seu confortável hotel, sozinho. Por enquanto preferia não rever a família, e, assim não ter de confessar o fracasso da esperada anunciação pública de suas teorias. Afinal, houve certo envolvimento de todos de sua casa, sacrifícios mesmo, quando se preparava por feriados e fins de semana....

O ideal era flanar um pouco no cair da noite, e acabar entrando por algum restaurante simpático que lhe passasse pelo caminho. Do quinto andar de seu apartamento de hotel, entretanto, teve uma visão aterradora: flanar por onde? Estava cercado de estradas por todos os lados. Não se caminha em Brasília, fora das quadras residenciais, e que guardam certa distância umas das outras, sem a continuidade de uma avenida de comércio para o turismo... Sair daquele seu hotel sem carro era tarefa impossível: não havia calçadas! Afrouxou a gravata, pensou num banho... Talvez o melhor fosse ir ao bar do hotel. Quem sabe lá não encontrava alguém para um papo descontraído, ou que lhe indicasse um bom restaurante vegetariano? Aí sim, tomaria um banho e chamaria um táxi. Mas, antes de mais nada, um uisquinho para apaziguar as idéias!, o quê pareceu-lhe, de início, pouco condizente – de ordinário ele não bebe – mas, precisando relaxar, tão longe de casa e de qualquer conhecido – ninguém precisaria saber! – que mal poderia haver nisto? Talvez fosse até medicinal!

O bar lhe traz uma sensação antiga; um reencontro com um ambiente de que se distanciara desde jovem. Sim, ele também, antes de se casar, há quase uns trinta anos, tinha tido coleguinhas e papos em bares lá na Tijuca onde crescera. Lembrou-se que muito se comentava então da solidão em Brasília, onde diziam ocorrer muitos suicídios. Uma cidade sem esquinas! Ninguém se encontra em parte alguma! Cada um se fecha em si mesmo... Os casais se separam facilmente. E procuram compensações nos tóxicos e no sexo circunstancial! Em seus hotéis há sempre a “entourage” política dos partidos, formadores de “lobbies”, executivos de firmas importantes, construtores, participantes de altas concorrências públicas... Por causa disto, todos os hotéis mantém suas mocinhas contratadas, até universitárias, como parte da diária!... As melhores meninas... e, em sua juventude, sentia-se curioso por conhecer “esta” Brasília... E é como se naquele bar começasse a encontrá-la, quando olha para as pernas cruzadas de duas moças tomando seus camparis numa mesa em frente! Desperta a curiosidade que ficara na Tijuca do tempo de seu vestibular, primeiros anos de faculdade... Na verdade, não verificara nada do que ouvira em papos dos colegas de então... A maior parte falava muito de sacanagens, mas praticava pouco, fora uma que outra ida a uns “rendez-vous” fuleiros... Menina, namorava-se “sério”. E assim casara-se... Já não sentia vontade de sair dali. Ia comer um sanduíche qualquer mesmo, podia até ser de hambúrguer – ninguém precisaria saber! – pois era só o que tinha ali no bar. E beber, sem comer nada, poderia fazer-lhe mal, uma vez que resolvera pedir uma segunda dose de “uisquinho”... Estava revivendo um gostoso saudosismo que o obrigava a ir ficando por ali...

Na terceira dose de “uisquinho” tomou coragem e perguntou ao “barman” se era verdade que tinham uma lista de acompanhantes para os hóspedes.
- Qual o senhor deseja? De “boys escorts” ou de mulé?

Assustou-se. Acaso tinha cara de bicha? Mas, afinal, estes são os novos tempos... Ele mesmo não tinha clientes que sem aparentarem ser veados, às vezes roçavam seu pau na ponta da cadeira, e se ele não muda de posição, sabe-se lá o quê ousariam mais. Um chegou mesmo a “cantá-lo”... Aliás, há mulheres que disfarçam uma encostadinha de ombros “sem querer” na parte frontal de suas coxas. Às vezes até se insinuam... Dá uma sensação esquisita diante da concentração do trabalho, pigarreia, ele é um cara sério. Tem uma família para sustentar, e não pensa em trair a mulher... Para quê? Isto pode lhe deixar numa sinuca; até desmoralizar...
- É verdade – perguntou lembrando-se do que deveria ser lenda da sua juventude sobre os hotéis de Brasília – que basta a gente descrever o tipo que deseja que vocês encontram e mandam para o quarto?

- O que o senhor tem em mente?

Mário Celso, na verdade, não tinha nada em mente. Apenas deixava-se voltar a algumas sensações há muito esquecidas, sublimadas... – ninguém precisaria saber! – E, assim, descreveu uma lourinha magra, magrinha e pequenina, bem branquela (por que?) com o nariz meio arrebitado, alguns tiques nervosos, um pouco de sarda, e não passasse dos vinte anos, apesar de aparentar somente uns quinze...

Ninguém precisaria saber. Na verdade, nem ele, pois depois da descrição vinda sabe-se lá de que inconsciente pedófilo, resolveu ir assistir a um filme na televisão, de pijama, pronto já para dormir, e sem esperar por coisa alguma, como se o desejo anunciado ao mago da lâmpada “barman” tivesse sido um devaneio, parte da conversa de bar com seus colegas da adolescência, que passavam por mundos não realizados nem realizáveis para sua formação, conformação, feitio...

Perto da meia-noite, no entanto (o hotel deve ter demorado a fazer o contato com o tipo pedido que se achava inscrito em seus catálogos), a campainha do quarto toca, e:
- (Surpresa:) Dr. Mário Celso!

- (Ainda mais surpreso:) Ana Rosa!

E os dois ficam se olhando espantados sem saber o que fazer. É a melhor amiga de sua filha. Viera sozinha para Brasília por ter passado no vestibular exatamente de Odontologia!, recomendado por ele. Dizia que iria se virar para se sustentar em Brasília, aonde não tinha parentes nem nada, e seus pais não estavam de acordo com aquela mudança; brigaram... Ele pede para ela entrar. Ela pergunta, tomando a ofensiva, sempre o melhor ataque, se ele tivera coragem de solicitar uma acompanhante, ele, um senhor tão sério, a quem considera quase um santo, que não bebe, não diz palavrões e disserta tão bem sobre religiões orientais!, que ela acreditava ter a dignidade dos pais de antigamente, e que era até mais considerado por ela que seu verdadeiro pai! Porque ela, tenta se justificar, nunca fizera isto. É que neste dia aconteceram coisas que puseram sua vida em perigo. Uma dívida que tivera de arcar, impossível de se livrar. Resolvera sacrificar-se... Seria só desta vez. Uma vez não conta... (e ele encara-a sem entender bem quantas vezes é que conta para se caracterizar a prostituição...) Mas, o doutor!, reprime ela... Passado o nervosismo do ataque, no entanto, reconhecendo que o que inventara não dava para convencer ninguém, torna-se revoltada: Que azar! Entre tantos homens no mundo, ter de ser exatamente seu “pai espiritual” (desde que chegara a Brasília envolvera-se, por inspiração dele, até com grupos meio místicos, que muito falam em holismo...). Só acontecia com ela!!! Ele faz-lhe algumas carícias tentando confortá-la, meio paternalmente, meio já senhor de uma situação que não parecia ser mais reversível. E entre pai e guloso, decide-se por beijá-la, e ela concorda, afinal, que ninguém precisaria saber... E se despe dizendo que era como se fosse com o próprio pai, fazendo deste gesto algo dramático, sabe-se lá por conta de quantas ambigüidades lhe passam pela cabeça e pelo desejo (haveria algum sadomasoquismo em deixar-se seduzir num incesto?)... Ele, porém, que já não tem aquela garra espontânea toda, prefere que ela comece mais devagar. Que prazer diferenciado sentir aquela boquinha tão delicada aquecendo-lhe e molhando o sexo... Pensa compreender como um presidente dos EUA possa ter posto em perigo todo seu poder, em troca de uma jovem acariciando-o daquela forma, cabelos esvoaçando sobre sua pele, mal dando para ver o rosto, como se as feições já não importassem, e ela não fosse mais alguém real, deste mundo. Sente-se fora, acima de qualquer realidade tangível!

Mas, no dia seguinte, ao acordar, e dar com a magrinha pequenina nua em sua cama, como se fosse uma bonequinha sem vida, descabelada, quase sem corpo, Dr. Mário Celso já não se sente tão confortável. Ela, de fato, era quase como uma filha. Que monstruosidade cometera? Por outro lado, que julgam os jovens de hoje deste mundo? Se sua filha tivesse vindo para Brasília, nas mesmas circunstâncias, agiria assim também? Isto é considerado grave como o termo prostituição em seu tempo de menino? E lhe volta à mente um folhetim de cordel que lera junto com uns colegas, numa exposição nordestina que houve no Tijuca Tênis Clube.

Coincidentemente a heroína chamava-se Rosinha; seu namorado, Severino, com a história começando no interior da Paraíba. Severino cantava versos amorosos para sua Rosinha, mas não conseguia beijar mais que seu rosto, pois na família humilde e catolicíssima dela, beijo na boca, só depois de casados. Iam à feira juntos, ouviam desafios, comiam jabá com jerimum, apreciavam os artesanatos de barro, ele mesmo fazia algum, preparando-se para quem sabe um dia vir a vender também, como venderia seus versos em cordel... A seca os tirou do lugar. Primeiro ela com a família. Ele teve de dar uma assistência ao avô com dificuldade em andar. Só quando conseguiu carona no caminhão do Zé, veio com a família para o Rio. Diacho de cidade grande!, nada de encontrar Rosinha, nas folgas dos trabalhos como operário em construções. Passa-se um ano, e, sem que mais esperasse dá com ela em circunstância inesperada. O drama termina, após descrever o choro convulsivo do Severino, com os dois versos da narrativa cordelística na primeira pessoa:

“À noite, eu dela comprei
O amor que nunca me deu...”

Foi numa casa de prostitutas, nem precisa se dizer. Era aonde a Rosinha conseguira emprego na cidade grande para sobreviver... E Mário Celso e seus colegas do clube engoliam em seco um chorinho, pensando não haver maior desgraça no mundo que o amor vendido, o amor mercado, destorcido de sua real função lírica, sentimental, familiar..., sobretudo quando este é forçado por circunstâncias sociais, numa personalidade tão pura quanto a Rosinha lá dos cafundós da Paraíba... (O contraste dos verbos “dar” e “comprar” aumentava o tom dramático...). Olha para a Ana Rosa universitária dormindo a seu lado, e pensa como mudou a história...


Evidentemente, hoje em dia, nenhuma Rosinha, por mais interiorana e católica que seja, mantém a virgindade para o casamento... Um drama vivido pelo tal Severino já não é compatível com os tempos. E, ao contrário, o sexo tornou-se até compulsório, independentemente de qualquer relação moral ou afetiva... A sua “filha adotiva” acorda, toma banho e café com ele, e, antes de se despedir lhe diz o preço, sem nenhum descontinho de parente. Que ela ia fazer? Fora lá porque precisa pagar o aluguel. Teve de ser com ele. Azar, mas a vida continua, ninguém precisaria saber...

Ele mesmo, com tantos princípios, não deixou a tentação dos tempos lhe afetar, tornando-se secundário ser a parceira mais que um objeto? Se sua filha aparecesse no quarto, parece-lhe que jamais a trataria como objeto. Mas, a relação aí entre a filha e uma sua amiga é tão tênue que não afasta a idéia do incesto – tudo pelo prazer e nada pelo relacionamento humano parece ser a mensagem de todas as mídias e mentalidades contemporâneas... O ser humano se animaliza... Sua mulher deve também estar sujeita às mesmas leis do sexismo atual. Pelo jeito que andam de perna de pau as relações sexuais entre os dois (e ponha tempo que isto ocorre!), ela também, numa noite sozinha num hotel daqueles, não seria tentada a encomendar seu “escort”? Sem nada de afetivo ou pessoal...? Nada mais holístico que o sexo hoje em dia, pensa, dr. Mário Celso: ele se confunde com a natureza animal de todos nós, já sem nenhum verniz da civilização enganadora, separatista, preconceituosa... Um leve aperto na garganta, com isto, lhe força alguns pigarros... Ele, um defensor do holismo, entrar neste conflito de visões... Aviva-se, no entanto, tentando corrigir o que pensara do comportamento de sua mulher: Coitada da Vânia! Sem dúvida que fora maldoso! Ela se tornara numa matrona bem humorada, condescendente, é certo, com os hábitos da geração dos filhos e com as cenas de novela de televisão, mas que não pareciam tocar nem um fio de sua formação antiga, não se incomodando (quantas outras coisas ocupavam-lhe a vida!) se ele estava ou não ficando (e o termo é da juventude dos dois:) meio “borocochô”... Em seu tempo de jovem a mulher sofria menos os assédio das tentações de conversinhas de sacanagem com colegas, que deixavam o resíduo da curiosidade e da frustração... Mas, ainda assim, muitas de suas amigas, que freqüentavam sua casa, e com ela se davam muito bem, sem dúvida que numa situação como a que supusera, pagariam seus “escorts”! Não importa se a Vânia, as filhas legítima ou adotiva tivessem esta ou aquela atitude. Todos estão mais ou menos passivos diante de uma realidade universal aberta a um posicionamento que toca o holístico de sua admiração... Sua cabeça rodava. A palavra prostituição lhe viera desde que Ana Rosa bateu em sua porta. Mas, a bem dizer da verdade, se todos hoje agem tão sem travas no comportamento sexual, o que passou a significar prostituição? É até engraçado considerar-se ofensivo chamar-se alguém de filho da puta... Pura tradição!

Arrumou a mala com pressa. Precisava sair rapidamente daquela cidade que lhe arrumara um seminário frustrante, uma ligação meio monstruosa e idéias que confundiam seu próprio posicionamento holístico! Mas, Brasília não era responsável por este último assunto. Realmente, precisava juntar algumas noções culturais a sua visão do holismo... E seu pensamento evolui, já no táxi para o aeroporto, lembrando-se das palavras de despedida de Ana Rosa:

- Na semana que vem é Natal. Papai Noel nos presenteou. A mim e a você... E isto ficou só entre nós... Ele sempre aparece sem que ninguém precise saber...

O presente dele fora sua gostosa carícia noturna. E o dela? Acariciá-lo? Ou não seria o pagamento que lhe garantiu o aluguel? Afinal, o hotel não deve lhe chamar com muita freqüência. Quantos doidos, como ele, escolheriam uma menininha desenxabida como aquela? Vai ver ele fora mesmo o primeiro, como ela afirmara no momento assustador do encontro... Necessidade de sobrevivência... Sua Ana Rosa não estava assim tão distante da Rosinha do cordel choroso de antigamente... E o ser humano... Ora, o ser humano!, ele haveria de saber compor todos estes dados com sua visão holística. É certo que poderia se tornar ainda mais engraçado ante seus colegas:
- O que o companheiro tem exatamente por holística?, perguntaram-lhe no seminário, quando gaguejou na resposta, passando-lhe várias definições conhecidas na cabeça, mal sabendo relacioná-las no momento. Numa outra ocasião, talvez responda lendo o folhetim da história da Rosinha, e se a platéia se comover é porque... Sei não... É preciso conhecer melhor o relacionamento universal da ética, as ciências e nossa arcada dentária! Ou o relativismo holístico é......? Ah!, até um próximo seminário ele terá a resposta! Por ora, ninguém precisaria saber de sua dúvida... – e respira aliviado, prendendo o cinto da cadeira do avião...