Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 105 - Dezembro de 2004


A POESIA COMPLETA DE LÊDO IVO

Fernando Py
poeta e tradutor, membro da Academia Petropolitana de Letras (fernanpy@bol.com.br)

Para comemorar os 80 anos do poeta Lêdo Ivo, publicou-se recentemente, em alentado volume, a sua Poesia completa, 1940-2004 (Rio de Janeiro: Topbooks / Braskem, 2004, 1104p.) com estudo introdutório de Ivan Junqueira, presidente da Academia Brasileira de Letras. O poeta, em geral vinculado à chamada Geração-45, pouco se encaixa nela – como também João Cabral, mas por motivos diversos, quase opostos. No livro de estréia, As imaginações (1944), Ivo mostrava visível influência de vários poetas, sobretudo Rimbaud, mas indicava que vinha para ficar, ou antes, para perturbar: além de investir contra os poetas de 1922, a quem acusava, com justiça, de coloquialismo excessivo e antilirismo, sua poesia, com o tempo, também se manifestou um tanto marginal à dos companheiros de geração, pois As imaginações abriam caminho para um poeta de versos tumultuosos, eventualmente longos, de “ritmos quase bíblicos”, segundo Ivan Junqueira no prefácio do livro. A partir mesmo do título, a estréia de Lêdo Ivo lembra as Illuminations de Rimbaud, as fantasmagorias do poeta francês, de quem mais tarde seria um excelente tradutor. De qualquer modo, As imaginações foi recebido com entusiasmo pela crítica da época, inclusive Mário de Andrade.

O lirismo desatado de Lêdo Ivo, com todo o seu coloquialismo peculiar, permanece e se desenvolve no segundo livro, Ode e elegia (1945), onde o poeta, se se mostra contido nos versos brancos da “Ode” (p. 77), espraia-se na métrica desmedida da “Elegia” (p.85) e de outros poemas, principalmente a “Elegia fantástica” (p. 99). Em todos os poemas do livro é manifesta uma preocupação metafísica, que será acentuada nos volumes seguintes, Ode ao crepúsculo (1946) e Ode equatorial (1950).
Curioso, porém, é que os primeiros livros do poeta não se coadunam com a postura formalista geral da Geração-45, nem com seus aspectos doutrinários. Pondo de lado o volume Acontecimento do soneto (1946), a poesia de Lêdo Ivo nem lembra a de seus companheiros, antes mostrando uma certa filiação com a dos poetas da chamada Segunda geração modernista, principalmente Murilo Mendes (pelos aspectos surreais). Por outro lado, o Acontecimento do soneto, representa uma das marcas de sua geração – o cultivo das formas fixas em geral —, mas o poeta só desenvolveu a forma soneto na maturidade, quando escreveu sonetos de grande penetração e que são obras-primas do gênero.

Contudo, na Ode equatorial e no Cântico (1951), Lêdo Ivo retorna ao verso caudaloso, de cunho celebratório, um tanto à maneira de Rilke. Já então domina a sua linguagem poética e se mostra senhor de seus recursos. Assim, Linguagem (1951), sugere até certo ponto uma experiência metalingüística, embora o que interessa ao poeta seja, basicamente, a vida ela própria, com todas as suas belezas e mazelas. Por outro lado, o poeta adquire e expõe a noção de eternidade, justamente com a afirmação de que o ser humano é efêmero e transitório. E em Linguagem principiam a aparecer, com mais constância, alguns temas da poesia de Lêdo Ivo, como o mar e outros, de certo modo a ele relacionados, como o da morte, da infância, do passar do tempo e da destruição de todas as formas de vida, etc. Temas que vão conferir à poesia de Lêdo Ivo uma diversidade temática extraordinária.

Em Um brasileiro em Paris (1955) e no longo poema O rei da Europa (1955), o poeta mostra como foi capaz de conter sua tendência ao excesso e ao caudaloso. Com versos de métrica variada, Lêdo Ivo prova seu domínio total sobre os meios de expressão. O poeta se mostra aqui um excelente virtuose do verso, o que poderia fazer pensar numa adesão aos postulados da Geração-45. Mas é engano. Sua poesia aceita o rigor, mas não a rigidez, e é neste livro que vai se abrindo para as paisagens do mundo, numa atitude que vai dar à sua poesia um cunho mais visual, onde se acentua o seu “parentesco” com Rimbaud, sobretudo nos versos finais do poema “As iluminações” (p. 340).

A partir de Magias (1960), o poeta nada mais tem a aprender: cristalizam-se todos os seus procedimentos e recursos. É onde começa a mudar sua visão do mundo: sobem à tona as suas preocupações com a morte, o sentido mais profundo de eternidade, em contraste com os aspectos mais corrosivos e caducos da existência de todas as coisas e criaturas. Em Estação central (1964) preocupa-se com a questão social brasileira, às vésperas da eclosão da ditadura militar. Volta sua atenção para as cenas urbanas, no Brasil e no exterior, escrevendo alguns de seus melhores poemas, como ‘As velhinhas de Chicago’ (p. 473) e ‘O montepio’ (p. 509).

Finisterra (1972) é certamente um dos mais importantes livros de Lêdo Ivo e talvez de toda a poesia brasileira contemporânea. Assinala o regresso do poeta às suas origens alagoanas, como a uma espécie de paraíso perdido. Daí por diante, todo esse regresso se faz presente, de alguma forma, no livros seguintes. Finisterra, assim, representa o desenho definitivo do homem Lêdo Ivo, o retrato do poeta tal como se projeta até o presente. A coletânea contém igualmente poemas admiráveis, como ‘Os morcegos’ (p. 533), e toda a comparsaria de bichos erguida no livro é paradigma da infância do poeta, vivida ao ar livre nos mangues e trapiches da Maceió natal, com uma habilidade para a descrição visual que Lêdo Ivo tornou muito sua. O soldado raso (1980) é um pequeno livro em que o poeta exercita sua veia epigramática, onde amiúde se vêem aforismos e alguns belos poemas, como ‘Zona industrial’ (p. 592).

O livro seguinte, A noite misteriosa (1982), é uma bela coletânea de poemas em que Lêdo Ivo ora se debruça sobre aspectos bucólicos da vida, ora faz poesia acerca do que há de mais repulsivo do cotidiano das pessoas de baixa extração social, como em ‘Os pobres na estação rodoviária’ (p. 635). De um modo geral, o poeta retrata criaturas cuja vida já desceu aos mais fundos graus da decadência. Não obstante, mantém seu lirismo proverbial e se volta para a questão da existência ou não de Deus. Por sua vez, Calabar (1985) é um poema dramático tendo como pano de fundo o episódio de Domingos Fernandes Calabar, durante a ocupação de Pernambuco pelos holandeses; mas, de fato, Lêdo Ivo, em meio à descrição das belezas naturais do Nordeste, coloca em foco as atividades, no século XX, de um certo guerrilheiro (?) alagoano, de Porto Calvo, chamado Messias Calabar, que é abatido após resistir ao cerco policial. Será uma forma de mostrar como os guerrilheiros dos anos 1970 se assemelhavam aos que combatiam os opressores do século XVII?

Em Mar oceano (1987), o poeta adota uma atitude dessacralizadora, muito afim da ambigüidade intrínseca de sua expressão. Aborda questões de importância fundamental para a vida humana, como no sonetilho ‘A clareira’ (p. 744) e em ‘A barata’ (p. 745). Neste último, explora a idéia de que a barata, inseto que recentemente se descobriu ser imune à radioatividade, nos sobreviverá; no primeiro, a clareira, entrevista em sonho, poderia ter a função alegórica de um “dom de Deus”. Aliás, mistério e indagação correm juntos pelo livro, tratados com a técnica apurada do autor, e a poesia brota, por assim dizer, de temas de toda espécie, transcendentais ou repulsivos, corriqueiros ou intelectuais. Em todo o livro há uma permanente atmosfera de meios-tons, num jogo de chiaro-oscuro bem próprio dos impressionistas e seus precursores.

Já em Crepúsculo civil (1990), o poeta põe muito mais do que deixa entrever. Por exemplo, o poema ‘A lua de Londres’ (p. 814) é, na superfície, apenas a celebração da lua londrina vista às margens do Tâmisa. No entanto, o texto apresenta ecos de um poema de igual título do poeta português João de Lemos (1819-1890), menos na ocorrência de uma dicção semelhante do que na atmosfera de ambos os poemas. A contínua reflexão existencial, que atravessa o livro, prende-se naturalmente à constatação do avanço da idade; porém, ainda aí, a par da meditação sobre o amor e a morte, a passagem do tempo e a solidão, o poeta exibe, intencionalmente, o coloquial e o grotesco que retiram do poema todo tipo de unção religiosa ou metafísica, ou solenidade bombástica. No Curral de peixe (1995), Lêdo Ivo extrai poesia do que existe de mais banal: o anoitecer nas ruas de Maceió, o cio de uma cadela, as cracas da ponte Rio-Niterói, etc. O poeta possui a incrível capacidade de erguer toda uma ars poetica a partir do corriqueiro e, o que é tanto mais difícil, empregar como elementos caracterizadores o fator insólito, a surpresa, tendo sempre como modelo o francês Rimbaud, de quem se fez excelente tradutor.

Tanto em Rumor da noite (2000) quanto em Plenilúnio (2004), o leitor se depara com uma poesia “noturna”. Mas essa conotação, em se tratando de Lêdo Ivo, engana. O poeta, logo na abertura de Rumor da noite, vai dizendo que prefere ao “gorjeio que conduz ao deleite... o grasnido que semeia / a insônia e o desconforto” (‘Uma referência’, p. 949). Portanto, não se deixa levar pela melopéia, pelo tom encantatório dos versos, propondo uma fricção, um contínuo atrito consciente que, aliás, alimentou sua poesia desde As imaginações. Assim, pois, é este o poeta que só lateralmente, e por equívoco cronológico, se mostrou integrado aos postulados da chamada Geração-45, construindo um verdadeiro universo dos mais diversos gêneros poéticos e que se expressou com grande variedade de linguagens: a lírica, a elegíaca, a reflexiva, a sarcástica, a dramática, numa riqueza que o leitor poderá avaliar plenamente nestas mil páginas. Vale a pena demorar-se na leitura de seus versos.