| Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 105 - Dezembro de 2004 |
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DOM PEDRO II: O MITO E A HISTÓRIA Sylvio Adalberto D. Pedro II nasceu
no Palácio Imperial da Boa Vista, às duas horas e meia da
madrugada do dia 02/12/1825 e morreu em Paris, no Hotel Bedford, na rua
L Árcade, 17 em 05/12/1981, aos 66 anos e três dias. Filho
do Imperador D Pedro I e da Imperatriz Maria Leopoldina Josefa Carolina
de Habsburgo, Arquiduquesa D’Áustria. Paixão pela fotografia - Em Paris, em 19/08/1839, anunciava-se oficialmente uma invenção de Louis Jacques Mandé Daguerre. Daguerre havia inventado, em 1822, o diorama, em que as combinações de claridade da tela pela frente e por trás, transformavam combinações diurnas em efeitos noturnos. Associou-se a Nicéphore Niépce, outro inventor que havia conseguido fixar as imagens. Niépce morreu, Daguerre trabalhou sozinho, realizando os chamados daguerreótipos. Era o embrião do que viria a ser a fotografia. Em 17/01/1840, quatro meses após, o abade francês Louis Compte, capelão da fragata L’Orientale, tirou os primeiros daguerreótipos em território brasileiro. Foram três vistas da região central do Rio de Janeiro, o Paço Imperial, o Chafariz de Mestre Valentim e o antigo mercado da Candelária, projetado pelo arquiteto Grandjean de Montigny, membro da missão artística francesa. Sensível ao prodígio do novo meio de expressão, apesar de sua pouca idade (fizera 14 anos no dia 2 de dezembro do ano anterior), um garoto carioca tornou-se o primeiro brasileiro a adquirir e a utilizar um equipamento de daguerreotipia, em março de 1840. Esse garoto se chamava Pedro Alcântara João Carlos Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Bragança e Habsburgo. Em virtude do absorvente oficio de Imperador, Dom Pedro II não teve a oportunidade de se dedicar intensamente à fotografia, o que não o impediu, contudo, de se tornar a figura central da fotografia brasileira oitocentista, muito em virtude da constituição da primeira grande coleção de fotografias do país, que doou à Biblioteca Nacional, quase trinta mil imagens, quando saiu do Brasil. Essa coleção, parte do olhar de D. Pedro sobre o mundo, recebeu o nome de Dona Thereza Cristina Maria, guardado por décadas nos arquivos da Biblioteca Nacional. De um montante de 590 fotos de viagem, parte desse acervo, 126, foram publicadas pelo Banco Santos, em 23 de junho de 2003 e recebeu o nome de “De volta à luz”. Dom Pedro inverteu a tradição do olhar estrangeiro sobre o mundo. Suas fotos reforçaram a civilização e a história. Em suas viagens parece que ele tinha consciência de estar produzindo uma iconografia histórica e confiando totalmente no poder gerado por aquele novo método de comunicação. São informações científicas, históricas, antropológicas e culturais e também um fantástico documento estético, que ainda não foi totalmente examinado e que se tornou parte da memória visual do país. São fotos, retratos, óleos, xilogravuras e litografias, que revelam não só as imagens do Imperador e de sua família, mas os grandes temas do século XIX, artes, urbanismo, arqueologia, biologia, botânica, mineração e saúde pública. Só a escravidão está ausente, como um figurante oculto, são reflexos diversos da construção cronológica da personagem Dom Pedro II como símbolo do Estado e imagem civilizatória à européia. A percepção da importância que a fotografia viria a desempenhar em todos os segmentos da vida humana fez com que Dom Pedro II rivalizasse com a Rainha Vitória, na concessão de honrarias aos praticantes da nova técnica. Já em 08 de março de 1851 atribuía a dupla de daguerreotipistas Buvelot e Prat o título de Fotógrafos da Casa Imperial. Vale a pena destacar Henriqueta Harms, primeira fotógrafa brasileira a dirigir um ateliê fotográfico, em 1851. E a senhora Hippolyte Lavenue, a primeira mulher a expor fotos no Brasil e primeira fotógrafa do mundo, o que ocorreu na Exposição Geral de Belas Artes da Academia Imperial, em 1842. Desta mesma época é também o fotógrafo carioca Militão Augusto de Azevedo, que trabalhava na Cia de Teatro de Joaquim Heleodoro, bisavô do professor Joaquim Elói, e que trocou o teatro pela fotografia vindo a ser o primeiro fotógrafo a retratar a cidade de São Paulo, deixando um acervo de doze mil fotos que hoje pertence ao museu da USP. A fotografia sempre desfrutou de espaço privilegiado nas exposições nacionais no período Imperial. Digno de nota também é o alemão Revert Henrique Klumb, que fotografou toda a estrada União e Indústria, assim que ficou pronta, em 1861. Klumb foi o fotógrafo predileto da Imperatriz Thereza Christina e professor de fotografia da Princesa Isabel, e o francês Victor Frond, que foi o primeiro fotógrafo a registrar o trabalho escravo no Brasil, dentro de um enfoque antropológico e não de mera curiosidade, como foi o caso de Christiano Júnior, que reduziu os escravos a meras curiosidades exóticas, em imagens vendidas a viajantes. Klumb e Victor Frond fotografaram os principais monumentos e logradouros públicos da época. Ele foi agraciado com o título de Fotógrafo da Casa Imperial. O primeiro livro de fotografia editado na América Latina Brasil Pitoresco, em 1861, foi de Victor Frond. Dom Pedro apoiou essa publicação facilitando a impressão do texto na Imprensa Oficial. O álbum de litografias foi impresso em Paris. Nesse livro constava, a guisa de agradecimentos, retratos de Dom Pedro, da Imperatriz Thereza Christina e da Princesa Isabel. Em 1865 apareceram as primeiras fotos das regiões serranas, Petrópolis, Teresópolis e Friburgo, de autoria do fotógrafo suíço George Leuzinger. Em 1867 o Brasil conquista sua primeira distinção internacional em fotografia. O fotógrafo Leuzinger recebe medalha de prata na Exposição Internacional de Paris, expondo pela primeira vez imagens da Amazônia. A última foto da família Imperial em Petrópolis foi tirada no dia 24/11/1889 pelo fotógrafo alemão Otto Hees, essa foto foi autografada por todos os membros da família a bordo do navio Alagoas, quando este passava por Fernando de Noronha. O Fim da Dinastia
- Dom Pedro II enfrentou as guerras do sul, as dificuldades da questão
Christie e a de tão triste memória Guerra do Paraguai, que
viria se constituir no dobre de finados do Império. Em seu governo
a cultura do País atingiu um nível bastante elevado, por
influência óbvia das idéias que chegavam da florescente
América do Norte e pelos ventos fortes que sopravam da Velha Europa,
com Victor Hugo e Charles Darwin à frente dos que formavam e mudavam
opiniões. O jornalismo, a história, a geografia, as ciências
naturais, as belas artes tiveram destacado impulso em suas diversas manifestações.
A literatura e as artes se constituíram numa linguagem civilizatória,
ajudando a construir uma identidade nacional. Buscou no índio o
símbolo da nação, o que se constituiu no primeiro
movimento cultural nacionalista. Exílio - O
Imperador, que estava em Petrópolis, parte para o Rio às
11 horas, acompanhado pela Imperatriz, dos Condes de Mota Maia, do Visconde
de Nogueira da Gama e do Conde Português de Aljezur. Umas cinco
ou seis pessoas esperavam-nos na Estação de São Francisco
Xavier. Pela primeira vez o Imperador atravessa as ruas da Capital do
Império sem sua guarda de honra. Antes das seis horas da tarde
aparece no Paço um exemplar da Gazeta da Tarde. Se o Imperador
o tivesse lido, ficaria sabendo que sua dinastia terminara no Brasil.
Nada mais havia a fazer e os novos dirigentes do país convenceram-se
de que o banimento era uma necessidade inadiável. Às três
da tarde, chegava ao Paço o portador da mensagem pessoal de Deodoro,
Major Frederico Sólon Sampaio Ribeiro. O Imperador lê, sem
demonstrar maiores emoções, chama o Barão de Loreto,
seu último ministro na pasta do Império, para dizer-lhe
que a República acaba de desterrá-lo e a todos os seus.
Depois o embarque forçado no “Alagoas”, que seria comboiado
pelo “Riachuelo”. Além do nome do transporte lembrar
a terra natal de Deodoro, ainda tremulam no mastro da popa, não
a bandeira que tremulara nas campanhas vitoriosas do Prata e do Paraguai,
mas um estranho pavilhão com listras horizontais, sete verdes e
sete amarelas e um canto azul marinho com 21 estrelas brancas. Governava
Portugal o Rei D. Carlos, neto de sua irmã D. Maria II, que foi
recebê-lo a bordo, com todo o Ministério. Ficaram 15 dias
em Lisboa, de onde seguiram para o Porto, e a 28 de dezembro daquele ano
perderia sua companheira de 40 anos, a Imperatriz Teresa Cristina. Tendo
se mudado para Paris, fora residir em modesto quarto no Hotel Bedford
na rua Larcade, 17, próximo à Praça da Concórdia,
aonde veio a falecer de pneumonia no dia 5 de dezembro de 1891. Seu corpo
foi transladado para Lisboa e depositado no Panteão de São
Vicente de Fora. Em 1916, Venceslau Brás aprova proposta do Instituto
Histórico e Geográfico, concordando que os corpos de Dom
Pedro de Alcântara e de d. Teresa Cristina retornem ao Brasil. Em
8 de janeiro de 1921 o encouraçado São Paulo transportou
os despojos do Imperador e da Imperatriz, para a Catedral de Petrópolis. Literatura - Deixou escrito apenas um volume de 106 páginas com o título de POESIAS, TYPOGRAFIA DO CORREIO IMPERIAL, Petrópolis - 1889, editado como homenagem pelos seus netos. O volume contém 10 poemas de sua autoria e o restante são traduções suas. Mas nada do que produziu poeticamente pode ser comparado aos Sonetos do Exílio, em qualidade e beleza estética. Muitas controvérsias, discussões apaixonadas a respeito da paternidade dos mesmos encheram páginas e páginas, que o digam Medeiros e Albuquerque e o excelente poeta Barão de Loreto. Mas, como são atribuídos a Dom Pedro II, vale citar um deles como exemplo, o que foi feito após a morte da Imperatriz (Corda que estala em harpa mal tangida,/ assim te vais, ó doce companheira/ da fortuna e do exílio, verdadeira/ metade de minha alma entristecida!// De augusto e velho tronco haste partida / e transplantada à terra brasileira,/ lá te fizeste a sombra hospitaleira,/ em que todo infortúnio achou guarida. // Feriu-te a ingratidão no seu delírio;/ caíste, e eu fico a sós neste abandono,/ do teu sepulcro vacilante círio! // Como foste feliz! Dorme o teu sono.../ Mãe do povo, acabou-se-te o martírio;/ Filha de reis, ganhaste um grande trono). Primeiro monarca nascido no Brasil, D Pedro foi comparado ao Menino Jesus na tradição portuguesa e revisto como Imperador do Divino, na ladainha brasileira, entendido como um novo D. Sebastião pelos fiéis da previsão de Vieira. Oitavo Duque de Bragança, cuja família estava entrelaçada com os Capetos da França, sua genealogia ia longe, chegava a Santo Estevão, rei da Hungria, a Filipe II, a Filipe IV, e aos reis de Aragão e Castela, filho de Bragança, Habsburgo e parente direto dos Bourbon, era conhecido como um pequeno deus europeu. Órfão de mãe com um ano, de pai aos dez, imperador aos quatorze e exilado aos sessenta, no seu caminho é muito difícil perceber onde se inicia a fala mítica da memória, quando acaba o discurso político e ideológico, onde começa a história e onde fica a metáfora. É até hoje difícil de entender uma corte em território americano onde o Príncipe se veste com o rigor majestático das grandes cortes, porém introduz uma murça de penas de papo de tucano, tal qual um cacique e um manto com ramos de café e tabaco e que apesar de sua alma protestante, adota a ritualística local. Sabe-se que todas as experiências monárquicas em território americano tiveram caráter quase tribal e anedótico, quando não foram farsas trágicas em alguns casos. Cercado de repúblicas, o modelo monárquico brasileiro contou com muitos obstáculos para seu reconhecimento, o boicote das nações americanas e principalmente o comércio negreiro. A mística da nobreza - Na ânsia de criar uma nova nação, desvinculada de Portugal, as elites apostaram na monarquia e na conformação de uma ritualística local. Principalmente a elite política situada na corte, originária de camadas sociais privilegiadas que se auto-intitulavam “a boa sociedade”, dividiria com ele a missão vital para a preservação do Estado, da própria elite e da “boa sociedade”. A realeza aparecia como único sistema de assegurar a unidade do vasto território e impedir o fantasma do desmembramento ocorrido nas ex-colônias espanholas. É quando a monarquia se transforma em símbolo fundamental, transcendendo a figura do rei como idéia de justiça, paz e equilíbrio. José Bonifácio afirmava nas suas NOTAS ÍNTIMAS: “Acusam-me alguns de que plantei a monarquia. (...) Porque era preciso interessar às antigas famílias e aos homens ricos que detestavam e temiam os demagogos. (...) Sem a Monarquia não haveria um centro de força e união e sem esta não se poderia resistir às cortes de Portugal e adquirir a independência nacional”. Toda a sociedade ainda continua impregnada pela mística dos títulos de nobreza, das ordens honoríficas e dos rituais de consagração. Sergio Buarque de Holanda afirmou que até hoje a consciência coletiva dos brasileiros não se desligou do espírito do Brasil imperial. A bandeira nacional, apesar das explicações que falam do verde de nossas matas e do amarelo de nossos minerais, tem fortes vínculos com a tradição monárquica: o verde é a cor heráldica da Casa Real Portuguesa de Bragança; o amarelo é a cor da Casa Imperial Austríaca de Habsburgo; o losango, que foi reaproveitado da bandeira Imperial, foi uma homenagem de Dom Pedro I a Napoleão, o Hino Nacional também é o mesmo do Império, já que Deodoro não aprovou o que venceu o concurso para a escolha do mesmo. Até a República foi iniciada por um monarquista convicto, Deodoro da Fonseca, que ao que parece não pretendia derrubar o Império, mas apenas combater um gabinete desfavorável. E a figura do Rei é percebida em uso quase instrumental pelas elites, já na releitura das festas populares o que está presente é a imagem mítica do rei, de um rei sagrado e religioso que não tem data nem lugar. E essa história não começa com D Pedro II, mas é sobre ele que incide uma quantidade maior de símbolos e de representações. De um lado a criação política e institucional, de outro a figura mítica do imaginário popular. Como falar de Dom
Pedro II? O Imperador que inaugurou o tropicalismo? O mecenas do movimento
romântico? O imortal mártir exilado ou o Rei que virou mito
depois de morto? Sabe-se que D. Pedro não centralizou todas as
decisões do Império nem tomou parte no conjunto de manobras.
Com ou sem seu consentimento, foi manobrado. Às vezes foi inserido
como parte e não como artífice. Sua educação
fora dirigida para a ciência, letras e artes. Política e
economia não eram questões que o mobilizavam. Era apenas
uma representação de si mesmo, ligado à realidade
por seu mordomo Paulo Barbosa. Foi programado e idealizado para existir
na imaginação dos seus fiéis súditos. Sua
imagem exposta nas repartições, casas da corte e jornais,
em seus inúmeros retratos, exibia sempre o mesmo rosto sem emoção,
incapaz de um sorriso. Tudo que era feito e realizado na Corte era apenas
para persuadir o povo da importância e grandeza do Rei. Se no dia
de sua pomposa sagração alguém tivesse tido a coragem
de gritar que o rei estava nu (como no conhecido conto de Andersen), por
certo teria deixado de ser Rei e passaria a valer apenas a sua passageira
humanidade. Na verdade não é relevante discutir se D. Pedro
II foi mais ou menos culto, muito ou pouco inteligente. A reflexão
sobre esse período da monarquia no Brasil leva a reconstrução
de todo um sistema político ligado a uma elite que cercava a realeza
e também ao imaginário percebido em rituais, costumes e
tradições. Definir D. Pedro II e sua época é
quase tão difícil como definir o século XIX. Século
da ciência e do liberalismo no ocidente. Era da agonia da escravidão
no país. Período que teve inicio com a queda de Napoleão
e as contradições que eclodiram na Primeira Guerra Mundial.
O século que conheceu o poder britânico, o desafio da unidade
alemã, as independências ibero-americanas e a corrida imperialista
que esfacelou Ásia e África. Quando se trata de Dom Pedro
II é muito difícil entender onde começa a história
e onde termina o mito. Já começa que ele parece mais velho
que seu pai, confusão que até hoje atrapalha as crianças
no colégio. Segundo Roberto da Matta, Dom Pedro II não nasceu.
Foi fundado. E é hoje um patrimônio nacional. |
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