Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 104 - Novembro de 2004


Lagoa de Jacarepiá renasce a partir de trabalho voluntário

Camilo Mota
editor de Poiésis, membro honorífico da International Writers and Artists Association (IWA)

— Quem levou minha água? —, pergunta com lágrima nos olhos uma criança de apenas 3 anos. A frase foi pronunciada a cerca de 5 anos, quando a lagoa de Jacarepiá, localizada na reserva ambiental de Massambaba, em Vilatur, Saquarema-RJ, começou a apresentar sinais de uma morte premente. O fato, relatado por um freqüentador do local, mostra que um pouco de sensibilidade é suficiente para perceber o grau de importância da conservação e preservação do meio ambiente. Se uma criança é capaz de perceber isso, por que será que os adultos ficam apáticos frente ao problema, ou, pior, pensam que o caso é para ser resolvido pelos “outros” e ficam à espera de uma solução mágica falando mais do que procurando achar uma solução? Contrariando a apatia geral, e já encarando a realidade de ter uma lagoa agonizante, praticamente seca e já convivendo com cenário em que o lodo do fundo passou a dominar a paisagem, um grupo de pessoas, movidas por seu amor à natureza e à sua comunidade, iniciou um movimento para resgatar o espaço tão vital à qualidade de vida de todos. Na época em que tudo parecia não ter mais solução, e que a seca atingiu em cheio a lagoa, qualquer movimento de conscientização parecia inútil. “Houve pessoas que disseram que estávamos loucos por querer fazer alguma coisa. Disseram até mesmo que o melhor a fazer seria aterrar tudo e construir um monte de casas”, relata Rui Lessa.

O primeiro “grito” de socorro aconteceu em 2002, quando José Reinoso, morador da região, junto a outros amigos, iniciou o trabalho de conscientização e limpeza do entorno da lagoa. A iniciativa, que conta com um alto grau de voluntarismo sem esperar em troca algum favorecimento político (o que é comum em muitos movimentos comunitários), baseou-se inicialmente em mutirões para limpeza. Apesar da dificuldade de conseguir apoio e ajuda da própria comunidade, o grupo que variava de 4 a 5 pessoas, semanalmente fazia seu trabalho. O resultado desse empenho foi a criação da Associação Amigos da Lagoa de Jacarepiá, que atualmente conta com cerca de 50 pessoas que colaboram ativamente através de doações financeiras. O dinheiro arrecadado está sendo usado no pagamento da manutenção do local.
Após dois anos de intenso trabalho, parece que a própria natureza está reconhecendo o valor do serviço abnegado dos “amigos”. A água voltou a aparecer e muda o cenário que antes era uma desolação de dar dó, e de provocar o choro de uma criança, conforme relatado. Cerca de duzentos filhotes de tilápia, carpas e acarás foram colocados na lagoa, e hoje já é possível pescar em suas águas. A Associação está se empenhando em conscientizar os moradores e visitantes a evitarem o uso de tarrafas, para impedir assim a pesca predatória. A volta dos peixes trouxe também o retorno de outras espécies que haviam sumido da região. Patos selvagens já surgem, ainda arredios, por entre as plantas. “Já é possível ver os queros-queros sobrevoando a lagoa em busca de alimentação”, conta com orgulho Joel Cummings, um dos amigos da lagoa.

As atividades continuam. Nos dias 25 e 26 de setembro, a comunidade e escolas de todo o município foram convidados a participar do plantio de árvores. As mudas escolhidas correspondem àquelas naturais de restinga ou da mata atlântica. O trabalho foi fiscalizado pela Superintendência Estadual de Rios e Lagoas (SERLA – 4ªAR), que enviou ao local o gerente regional Erasmo E. R. Bussinger e dois estagiários. Segundo ele, a SERLA está preparando um anteprojeto para fazer a demarcação da lagoa, bem como está mobilizando esforços para sensibilizar a Assembléia Legislativa do Estado do Rio (ALERJ) para que viabilize a liberação de verbas para a realização de estudos para que seja feito o desassoreamento do local. A lagoa, devido ao longo período de seca, acumulou muito lodo, que provocou o crescimento de uma vegetação imprópria e que aos poucos está sendo retirada, provisoriamente, através de mutirões e de pessoas pagas pela Associação de Amigos para executar o serviço.

As crianças que participaram do plantio de árvores em setembro receberam um certificado de “Padrinho da Árvore”. Cada planta foi devidamente identificada e registrada sua localização através de GPS, de maneira que, no futuro, cada padrinho poderá ir ver como está a árvore que plantou.

O plantio de mudas continua e quem quiser colaborar com a Associação de Amigos da Lagoa de Jacarepiá pode se inscrever todos os finais de semana à beira da própria lagoa, com José Reinoso, ou ainda através do telefone (22) 2655-1514 (Gilson) em Vilatur, e José Vicente (21) 9747-0728 no Rio de Janeiro, ou ainda pelo e-mail jvmartorano@aol.com.


Fotos da Lagoa de Jacarepiá estão disponíveis na seção "Arquivo de Fotos" do saite www.novasaquarema.com.br.