| Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 104 - Novembro de 2004 |
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POESIA E PROSA DE DRUMMOND Fernando Py Comemorando o centenário natalício de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), reuniu-se a maior cópia de escritos do poeta em verso e prosa. Refiro-me às edições de Poesia completa (Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1ª edição, 1ª reimpressão, 2003) e Prosa seleta (Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003), cada qual em um volume. No caso das “poesias completas”, acolhem-se as coletâneas que o próprio poeta organizou em vida, desde Alguma poesia até Farewell, incluindo-se no capítulo Dispersos, as coletâneas Viola de bolso-III e Poesia errante. A fixação dos textos e as notas foram cometidas ao professor Gilberto Mendonça Teles, e o volume traz uma introdução de Silviano Santiago, além da fortuna crítica, cronologia da vida e da obra e uma reportagem iconográfica. Em apêndice, vêm a bibliografia, o índice de títulos e primeiros versos, e o índice geral. No caso da “Prosa seleta” temos, integralmente, as duas coletâneas de seus contos (Contos de aprendiz e Contos plausíveis), uma seleção, feita pelo próprio Drummond, dos textos dos demais livros que organizou, de Confissões de Minas (1944) a Moça deitada na grama (1987), quase todos exclusivamente de crônicas. Além desses, incluem-se o diário O observador no escritório (1985), o volume Tempo, vida, poesia (1986), reunião de entrevistas com Lya Cavalcanti na rádio Jornal do Brasil, e o livro de aforismos O avesso das coisas (1987). Portanto, mesmo não sendo a totalidade de sua produção em livro, estes dois volumes oferecem o essencial da obra drummondiana em verso e prosa. Ao estrear com Alguma poesia (1930), Carlos Drummond de Andrade já possuía uma medida de valores definida, ao menos em relação ao tipo de poesia que não desejava praticar: a dos padrões neoparnasianos, pois sua experiência no trato da poesia já datava de dez anos antes. O poeta buscava um modo próprio de expressão e manifestava o desejo de “trabalhar a realidade com mãos puras.”1 A maioria dos poemas de Alguma poesia exibe uma série de pequenas anotações com humor, onde Drummond registra a experiência pessoal e o ambiente em que se movimenta. Procura desenvolver o seu lirismo, que se caracteriza, quanto à linguagem, por um coloquialismo em que a expressão mais chã é erguida à condição de símbolo, como em “No meio do caminho”. Alguns poemas, em geral curtos, quase aforismáticos, dão notícia de sua gaucherie no convívio humano; são poemas em que se exterioriza o desprezo e a amargura, quase sempre envoltos em ironia: “Cota zero”, “Sinal de apito”, Política literária”, “Sociedade”, etc. Mas a atitude pessimista é contrabalançada no texto final da coletânea, “Poema da purificação”. Brejo das Almas (1934) mantém o recorte coloquial dos poemas, porém de maneira menos ostensiva. Mas o pessimismo se acentua e com ele o desencanto, a idéia do “absurdo da vida”, exemplificados em textos como “Convite triste”, “Não se mate”, “Coisa miserável”, “Segredo”, e alguns mais. Em contrapartida, como para purgar-se dessas idéias negativas, aspira o poeta a uma ingenuidade e a uma pureza compensatórias, cuidando achá-las em climas e ambientes longínquos, ou numa espiritualização surpreendente: “Oceania” e “Castidade”, p. ex. A partir daí, num processo progressivo de solidariedade humana, o poeta empreende uma reformulação dos seus conceitos de vida, e esse processo exprime-se e é adequadamente resolvido em Sentimento do mundo (1940). O impasse entre a sua sensibilidade de poeta e as “exigências brutas” de um mundo em guerra resolve-se numa tentativa de convivência. Mais seguro de seus ritmos, manejando o verso-livre com maior eficiência, o poeta esboça a temática social, alçando a chamada “poesia participante” a um nível nem antes nem depois igualado na poesia de língua portuguesa. José (em Poesias, 1942) apresenta poemas onde há muita dor, muito sofrimento, fala-se de misérias e desgostos, mas as alegorias e símbolos dos textos encobrem um universo grotesco que corresponde à transfiguração patética da realidade circundante. Mas é em A Rosa do povo (1945) que Drummond atinge um dos pontos altos de sua poesia. Podemos aqui observar a emoção poética unida a uma linguagem cada vez mais precisa: o poeta alcança o amadurecimento completo sem baixar o nível artístico, realizando poemas de conteúdo político onde é máximo o seu poder de comunicação e participação. Sem favor algum, textos como “Nosso tempo”, “Carta a Stalingrado” e “Visão 1944” inserem-se entre o que de mais alto já se escreveu no âmbito da poesia política. Drummond verbera o mundo que se destrói numa guerra estúpida e brutal, reagindo também contra a desumanidade da vida mecânica e a rotina, o que por vezes o faz alimentar dúvidas quanto ao futuro, como p. ex., em “Ontem” ou “Episódio”, poemas que prenunciam uma nova fase, não-participante, do poeta. Novos poemas (em Poesia até agora, 1948) caracteriza-se por ser uma coletânea de transição: ao mesmo tempo que escreve textos que lembram a fase participante, como “Notícias de Espanha” e “A Federico García Lorca”, apresenta outros em que se antecipa uma poesia mais comprometida com a da coletânea seguinte, como, p. ex., “Estâncias”, “Jardim”, “Composição”, “O enigma”, etc. A intensa preocupação com problemas existenciais, já antevista em Novos poemas, radicaliza-se em Claro enigma (1951), outro ponto alto de sua poesia, contendo alguns dos mais belos e impressivos poemas de Drummond, onde se destacam “A mesa”, “Os bens e o sangue”, “O relógio do Rosário” e, sobretudo, “A máquina do mundo”. A evolução do poeta alcança alto grau de artesanato do verso e manejo de formas e ritmos. Sua poesia inaugura uma fase de profunda densidade e especulação filosófica. Seus temas básicos são a indagação existencial e a morte, e a sensação de vida perdida é constante nesses poemas. E é o sentimento da morte que acaba prevalecendo em Fazendeiro do ar (1955): em “Elegia”, p. ex., o adjetivo “frio”, sem esforço ligado à idéia de morte, é empregado como se fosse um atributo pessoal do poeta, impregnando o ambiente em que ele se movimenta. A temática da morte esperada se acentua em A vida passada a limpo (em Poemas, 1959), onde Drummond intenta um balanço de sua vida, principalmente no poema “Nudez”. Lembra um pouco o pessimismo de Brejo das Almas, porém aqui é a velhice que atua e o faz julgar nada haver realizado que perdure. Ainda em A vida passada a limpo, convém não deixar de mencionar dois belos poemas: “Ciclo”, cujo tema é a paixão do homem adulto de meia idade pela mulher nova, a quem conheceu desde quando ela ainda estava sendo gerada; e “A um hotel em demolição”, monumento poético importantíssimo, no qual Drummond, a pretexto de compor uma elegia pelo Hotel Avenida, ponto referencial obrigatório no centro do Rio de Janeiro, realiza de fato uma verdadeira polifonia de metros e ritmos, com grande virtuosismo e propriedade de linguagem. Em Lição de coisas (1962), o poeta se volta basicamente para a pesquisa da palavra como signo fonético, a utilização lúdico-espacial do vocabulário, o neologismo como fonte de emoção estética sem perda de seu caráter expressivo. Explora aspectos formais do verso e semânticos da palavra, aliterações, distorções, etc., em poemas como “Isso é aquilo”, “ A palavra e a terra”, “F”, “Massacre”, “Amar-amargo”, “A bomba”, e outros. Mas, por outro lado, busca igualmente a recriação da infância, lembrando episódios e tipos de sua meninice, em poemas cujas linguagem é bem simples e direta. Além deles, destaque-se um importante poema, longo e dramático, “O padre, a moça”, do qual se fez um belo filme. Esses aspectos reúnem-se em Boitempo & A Falta que ama (1969); em Boitempo, a problemática da infância é investigada mais a fundo, em poemas cuja amplitude transbordou deste livro, ocupando mais dois volumes (Menino antigo, 1973, e Esquecer para lembrar, 1979, títulos abandonados), e formando um verdadeiro conjunto de memórias; em A Falta que ama, sua poesia procede a uma intensa indagação existencial, mantendo a pesquisa da palavra. Enquanto Drummond escrevia suas memórias em verso, paralelamente publicava volumes que continuavam a indagação existencial de A Falta que ama. Em 1973, editou-se As impurezas do branco, onde, num longo poema (“Ao deus kom-unik-assão”) em que é constante a invenção verbal, ironiza o demasiado apelo contemporâneo aos meios de comunicação. A paixão medida (1980) mostra um Drummond simples porém seguro no acabamento formal dos versos e dos poemas. Perpassa pelo livro um sentimento de vida como é possível encará-la à beira dos 80 anos: com serenidade, conhecimento de causa e, sobretudo, sem melancolia. O livro nada tem de elegíaco; ao contrário, o poeta possui momentos de um lirismo desatado que o faz rejuvenescido, como em “Declaração do amor”, chegando mesmo a atingir a crueza erótica em “Fonte grega”. Além disso, Drummond varia bastante na aplicação de versos, desde os medidos com rigor nas formas fixas, como o soneto, passando pela quadra heptassilábica de recorte popular, como no forte poema dramático “O marginal Clorindo Gato”, até o verso-livre mais descompromissado, não raro quilométrico, como em “Memória húngara”. Já na coletânea Corpo (1984), o tema básico é o corpo humano, especialmente a nudez feminina; porém, Drummond logo vai apresentando variações não apenas no enfoque existencial mas até de circunstância, como se quisesse mesclar um tom “maior” a um tom “menor”. E volta-se igualmente para a terra natal e recordações de Minas, além de continuar abordando a questão da morte, encerrando o volume com o longo e notável poema “Favelário nacional”, que lembra seus antigos tempos de poesia social participante. Em Amar se aprende amando (1985), o poeta volta a insistir na tônica do amor e do corpo feminino, mas também na questão da solidariedade humana, debruçando-se sobre os grandes problemas da humanidade e dedicando poemas a amigos mortos e vivos, e faz da noção de amor um sinônimo de amizade e compreensão, carinho, ternura e saudade. “Amar se aprende amando” — diz o poeta. E seus leitores aprendem com ele: tudo na vida pode ser objeto de amor. Do amor ao erotismo basta um pulo. E, após a morte do poeta, publicaram-se os seus poemas eróticos, que muito poucos conheciam em cópias datilografadas. Contudo, os poemas de O amor natural (1990), se possuem momentos excelentes, tanto como realização formal, quanto como criação neológica ou soluções fônicas, não estão à altura das melhores composições de Drummond no gênero, como “Amar”, “Tarde de Maio” e “Campo de flores” (de Claro enigma), ou “Escada” e “O quarto em desordem” (de Fazendeiro do ar). Ainda assim, alguns são bem apreciáveis (todos sem título e com o título dado pelo primeiro verso), destacando-se “Amor, pois que é palavra essencial”, “A moça mostrava a coxa”, “A castidade com que abria as coxas” e “No corpo feminino, esse retiro”. Em Farewell (1996),
livro que deixou organizado e com o qual, a partir do título, se
despede dos leitores e do mundo, o poeta aponta sobretudo para o desengano
da vida já vivida em todos os seus limites; há um indisfarçável
tom elegíaco nos poemas, aliado à simplicidade de expressão
que sempre o caracterizou e o fez admirado até pelas camadas mais
humildes do povo. Acrescentaram-se à edição as vinhetas
da série Arte em exposição (1990), em que Drummond
faz um breve comentário em versos acerca de reproduções
de quadros e esculturas. No todo, Farewell é uma grave meditação
sobre a morte, culminando um processo que vinha desde A paixão
medida. Embora menos considerado
talvez, devido à importância de sua poesia, Drummond foi
um prosador excelente, deixando uma obra que o coloca entre os melhores
do gênero. Como contista, publicou duas coletâneas: Contos
de aprendiz (1951) e Contos plausíveis (1981). Em Contos de aprendiz,
debruçando-se sobre episódios da infância, que recria
com humor não isento de ironia (“A salvação
da alma”, “O sorvete”), ou com o grave sentimento da
descoberta da morte (“A doida”), Drummond nos traz de volta
aspectos e costumes antigos do interior mineiro (“Presépio”,
Câmara e cadeia”) e opera admiravelmente a fusão do
grotesco e do fantástico (“O gerente”, “Flor,
telefone, moça”), delineando com mestria situações
e tipos característicos (“Beira-rio”, “Meu companheiro”,
“A baronesa”, “Nossa amiga”, “Conversa de
velho com criança”, “Extraordinária conversa
com uma senhora de minhas relações”). Já “Miguel
e seu furto” e “Um escritor nasce e morre” são
histórias em que se faz mais presente a meditação
sobre a vida intelectual e o poder fantástico da criação
original. No entanto, a grande massa de sua atividade em prosa se compõe de crônicas, das quais o poeta selecionou uma parte, publicando mais de dez volumes entre 1944 e 1987. Diga-se logo que tanto Confissões de Minas quanto Passeios na ilha (1952) não se compõem exclusivamente de crônicas: ambos também apresenta textos de crítica literária e ensaios variados, distinguindo-se, no primeiro, os textos críticos sobre Fagundes Varela, Casimiro de Abreu e Gonçalves Dias, além de uma memória sobre a cidade natal de Itabira (“Vila de Utopia”); e, no segundo, algumas crônicas escritas a modo de ensaios, como “Reflexões sobre o fanatismo”, “Trabalhador e poesia” e “Meditação na Alto da Boa Vista”, e textos sobre escritores brasileiros contemporâneos. A partir de Fala,
amendoeira (1957), Drummond selecionou as crônicas que O observador no escritório
é a seleção das páginas de um diário
que Drummond escreveu durante anos e por fim abandonou. O que restou deles,
e se publicou, são instantâneos pessoais, retratos e flagrantes
que respondem pelo interesse maior do livro. Por exemplo, o perfil de
Luiz Carlos Prestes, a quem entrevistou na prisão, e os retratos
que nos dá de Américo Facó, Max Grossmann, Órris
Soares, Manuel Bandeira, Cecília Meireles e muitos outros. Drummond
mostra-se um homem para quem nada do que for humano é alheio, conforme
as palavras de Terêncio,4 e a leitura de seu diário é
proveitosa mesmo aos que pegam um livro para se distrair. Notas
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