| Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 104 - Novembro de 2004 |
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A DANÇA INTERIOR Leila M. Fonseca
Barbosa O conto é a
mais antiga expressão da literatura de ficção, mesmo
entre os povos que não conheciam a linguagem escrita. Machado de
Assis em uma de suas crônicas publicadas na revista A Semana lembra
que, a rigor, o primeiro texto do conto foi o discurso da serpente induzindo
Eva a comer o fruto proibido. Como literatura escrita sua origem remonta
a Partênio de Nicéia, mestre de Virgílio, que enfeixou
num livro intitulado Aventuras de amor, 36 histórias tidas como
realmente acontecidas. O poeta Dilermando Rocha selecionou, cuidadosamente, plantas exóticas para enfeitar ou enfeitiçar seu Jardim esquisito. Dividido em duas partes, na primeira os canteiros se sucedem semeados pela sensibilidade e emoção do autor sem, no entanto, perderem a presença apolínia da razão, especialmente os textos que rememoram tenebrosos tempos da ditadura. É interessante notar também a trajetória psicanalítica percorrida pelos personagens. No de abertura, O dinossauro ou meus (des)encontros, há marcante presença do gigante antediluviano e em Mosquito na teia, a famosa aracne de teia negra, ambos – dinossauro e aranha – de características freudianas. No segundo, A Passarinha ou Aconteceu perto de uma pequena estação lá no interior do meu estado, há a busca da rosa vermelha do sexo que será colhida pelo certeiro tiro no coração. Ainda nesta linha são tratados todos os medos provocados por fantasmas de Dentro da noite escura, sem perspectiva de madrugada e na Armadilha de onça, confundindo-se confundem o experiente caçador e...o leitor. A datada estória de Tity (Pigeon) da época do sucesso da música Amendoim torradinho, reveladora do suicídio de um amor não correspondido, os problemas da impotência de um galo, Velho guerreiro (prêmio Sylvia Orthof, do Seerj-Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro/1999) e os interessantes acontecimentos provocados pela misteriosa Rosa da Paz enveredam-se por uma trilha dialógica mais realista em Rosa geriátrica. A História do Brasil recente é recontada magistralmente em Dedos duros e as moscas, onde a técnica do monólogo interior deixa jorrar todo o horror do autoritarismo; em Cães da noite, onde o isolamento dos 21 anos é fechado com a afirmação intertextual de Murilo Mendes e Thiago de Mello,”Viver: de seu silêncio aprendendo não temer perder-se na noite escura”, e “Faz escuro mas eu canto”, respectivamente; e, em Pássaro cantador, a metáfora da mão esquerda atrofiada e a presença dos artistas subversivos abalam o poder de Ele (o ditador). Já a História mais antiga fica a cargo de Maurício de Nassau, que em O Prícipe e as índias, decreve a terra tropical e a fabulosa visão das destemidas amazonas. A busca da perfeição vislumbrada como um pássaro azul em meio à carência total é descrita – com perfeição – em A nave dos animais, e Os cisnes do lago encerra ensinamentos sobre problemas raciais. Voltando às
raízes primordiais Dilermando tropeça, em seu jardim esquisito,
no anjo negro ou demônio, pai gerador de Caim (Tropeção
no jardim), e nos mostra sua preocupação em levantar as
semelhanças entre o homem e os animais, muito maiores do que as
diferenças. Esses inúmeros animais que povoam os canteiros
da entrada (1ª Parte) vão reaparecer em prosa poética
e de modo sintético na 2ª parte, sugestivamente batizada pelo
autor de Zoobotânico particular. O peixe, a cobra, a garça,
o jacaré, a borboleta, a cigarra, a formiga, a mosca, a cegonha,
cordeiros – símbolos teriomorfos que enfeixam uma constelação
de significados – são colocados junto às plantas,
flores, frutos e árvores neste jardim-pomar exótico e extraordinário.
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