Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 103 - Outubro de 2004


OS TRÊS MOSQUETEIROS

Fernando Py
poeta e tradutor, membro da Academia Petropolitana de Letras

Para que nova edição de Os Três Mosqueteiros, já que existem outras tantas no mercado e a história em si é vastamente conhecida desde sua primeira publicação há exatos 160 anos (1844)? A obra de Alexandre Dumas é hoje um clássico da literatura juvenil, embora não tenha sido escrita originalmente para crianças e adolescentes. Sendo o que se denomina um “romance popular” (por oposição ao propriamente literário), está mais preso às suas origens romanescas, isto é, vale-se mais da imaginação do autor, em geral fecunda e diversificada, do que de valores propriamente literários, os quais, todavia, não estão de todo ausentes.

E isto, afinal, não implica desdouro algum. Os Três Mosqueteiros é uma obra que vem resistindo galhardamente ao passar do tempo, enquanto que outras da mesma época e talvez de maior ambição literária estão irremediavelmente esquecidas. A narrativa romanesca, aliás não exclusiva do período romântico, teve seu momento e marcou o seu tempo. Voltando-se em muitas ocasiões para o passado histórico, colorindo-o e idealizando-o soube ser também um romance de época, pois a visão que o autor possuía do pretérito era temperada com seu conhecimento, e conhecimento de quem se situava no futuro dos fatos narrados, o que, de um jeito ou outro, acaba transparecendo no entrecho.

Não se trata, de fato, de uma criação, e sim de uma invenção. Mas uma invenção perfeitamente adequada às exigências de um público menos refinado, invenção bastante colorida, abundante em detalhes e que confere uma extrema ilusão de poder criador. Acresce, no caso presente, que Dumas tem grande habilidade para armar enredos dramáticos e é feliz na sua capacidade de conduzir a narrativa, o que contribui poderosamente para emprestar verossimilhança às situações e personagens. E neste romance, como em vários outros do mesmo tipo e da mesma época, estão presentes dois temas caros ao Romantismo, e que permanecem como modelos até os dias de hoje.

Um deles é o da amizade solidária, consubstanciada na figura os três mosqueteiros, Athos, Porthos e Aramis, amigos inseparáveis cujo lema — “um por todos, todos por um” — já virou máxima corriqueira atualmente. O outro é o da própria figura de D’Artagnan, jovem que chega da província para vencer na capital. Sem conhecer ninguém em Paris, vai aos poucos se destacando entre os espadachins do rei, ascendendo, no final, a tenente dos mosqueteiros. Configura o típico herói romântico, exemplo mais popularesco do jovem que sobe na vida pelos seus próprios esforços, antecessor do moderno self-made man. O Romantismo prezou muito esse tipo. Na literatura francesa da época, ele é encontrado, principalmente, em Stendhal e Balzac. E o próprio Dumas criou um personagem variante do gênero: a figura mais complexa e por vezes contraditória de Edmond Dantès, o Conde de Monte-Cristo.

Mas a história de Dumas não se cinge às aventuras dos mosqueteiros. Jogando com personalidades históricas, Dumas exibe um painel romanceado da França do tempo de Luís XIII. Nem sempre se atém à verdade histórica e recria, com bastante liberdade, pessoas, fatos e situações.1 O resultado é uma miscelânea de verdade pouca e fantasia muita, que no entanto prende o leitor até o fim.2

Voltando à pergunta do início: a resposta, entre outras é que nesta nova tradução (Os Três Mosqueteiros, Rio de Janeiro: Ediouro, 2004, 628p.; tradução de Fernando Py), além de se manter o prefácio do autor, acrescentam-se três apêndices ao livro: o primeiro, também escrito por Dumas, é de fato um hábil subterfúgio para introduzir outra obra sua (História de um morto contada por ele próprio), e com esse apêndice, de certo modo, Dumas contradiz as palavras do prefácio. O segundo apêndice faz um pequeno histórico da época em que Os Três Mosqueteiros foi escrito, mostrando inclusive os principais acontecimentos e invenções ocorridos nesse período. O terceiro, finalmente, elabora uma ‘Cronologia histórica’, na qual, ao lado de fatos e acontecimentos da vida real, ajuntam-se dados biográficos e outros, inventados por Dumas, relativos aos personagens fictícios do romance. São esses apêndices, sobretudo o primeiro e o terceiro, que fazem a grande diferença desta edição.
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Notas
1. Sirva de exemplo o episódio do assassinato do duque de Buckingham, ocorrido em 1628. Ele foi, de fato, apunhalado por um oficial puritano fanático, John Felton, que cometeu o crime devido a suas convicções religiosas e não, como está no romance, seduzido por Milady, que é personagem inteiramente fictícia.
2. E não só até o fim. Pois, como sabemos, a grande maioria dos personagens reaparece no romance Vinte anos depois, do mesmo Dumas.