Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 103 - Outubro de 2004


As metáforas da opressão em
‘A hora dos ruminantes’ de José J. Veiga

Marcelo J. Fernandes
Membro do conselho editorial de Poiésis, diretor do Colégio Santa Teresa D’Ávila, em Petrópolis, é professor de Teoria da Literatura e Literatura Brasileira na Univesidade Estácio de Sá e na Universidade Católica de Petrópolis. (mjfernandes@ig.com.br)

Na Literatura Brasileira, o fantástico (e suas vertentes), como subgênero, é ainda uma modalidade pouco ocorrente. No século XIX, mais pela temática do que pela estrutura, Álvares de Azevedo abriu o “caminho” com a pequena novela Noite na Taverna e com o drama Macário, seguido, à mesma época, por seu colega de faculdade Bernardo Guimarães e, posteriormente, Machado de Assis, com interessante tipologia fantástica (Cf. Poiésis nº 85, abril/2003 em nosso artigo “Machado de Assis, quase-macabro”), e outros na virada do século XX, inclinando-se para o realismo-naturalismo e o regionalismo.

Contemporaneamente, acentuam-se as obras de Murilo Rubião (mais avizinhada ao realismo mágico) e José J. Veiga, em meio a um grupo substancialmente maior do que todos que o antecederam no século XIX: Guimarães Rosa, Moacyr Scliar, Lygia Fagundes Telles, Flávio Moreira da Costa, Aníbal Machado, Ignácio de Loyola Brandão, Roberto Brandão, Victor Giudice, entre outros, citados fora de ordem cronológica.

J. J. Veiga (José Jacinto da Veiga – (*Corumbá, 1915 - † Rio de Janeiro, 1999) situa suas personagens (à exceção de sua última obra, Objetos turbulentos) no espaço trans-real do campo, caracterizando uma literatura distópica, transparecendo sempre uma relação opressor/oprimido. A irrupção do fantástico, ou realismo irrealista, é gradual, começando sutil e terminando denso, hiperbólico, aproximando-se do bizarro, do grotesco, do absurdo, e a par das reflexões de caráter existencial, parece ser a alegoria da sociedade urbana brasileira dos ditos anos rebeldes e anos de chumbo, apenas ambientada no campo, a título de “biombo” ou “máscara” ficcional de sua produção.

A narrativa trata principalmente da passividade com que uma população inteira se deixa tomar por uma invasão absurda de seu território, sem ter espaço, ânimo ou forças para organizar uma reação. O caráter alegórico dessa narrativa, longe de esgotar qualquer eixo interpretativo, é aberto e se dispõe ao leitor em múltiplas possibilidades de significação. Aqui em nosso caso, vamos reforçar a análise das metáforas de uma maciça ocupação militar e suas relações com as pessoas do povoado.

A hora dos ruminantes (1966, Civilização Brasileira, RJ) foca a história na fictícia vila de Manarairema, lugarejo interiorano, cujas figuras centrais são o vendeiro, o marceneiro, o ferreiro e o carroceiro. O ponto de encontro é a venda, onde lingüiça, fumo de corda, prego e arame se alinham no balcão tosco. O romance costura a história extraordinária dessa comunidade subitamente invadida, primeiro por forasteiros hostis, depois por uma numerosa matilha e, finalmente, uma enorme manada de bois.
Para tecer a sua narrativa, a obra se divide em três partes distintas, denominadas “A chegada”, “O dia dos cachorros” e “O dia dos bois”. Diante delas, a pergunta imediata que o leitor se faz é sobre a ausência do complemento ao primeiro subtítulo: a chegada de quê ou de quem? Uma rápida comparação com os outros dois títulos o leva à suposição de que se trata de algum outro ser do reino animal. Mas a verdade é que esse complemento sonegado encerra a questão principal em Manarairema, pois, embora se venha a saber posteriormente que se refere à chegada de homens, o caráter inusitado destes mantém o sentido de sua presença na cidade como um enigma a ser decifrado.

Geograficamente, o espaço é dividido entre “lá” (a tapera) e “cá” (a vila), e esta relação se estabelece até o final da trama.

As personagens

Os forasteiros inicialmente abordam Geminiano, carroceiro de profissão e dono de seus meios de trabalho. Eles travam o primeiro contato, após um “namoro” com os habitantes. Esta aproximação primária nos parece óbvia, uma vez que ele será o elo e fará os fretes entre “lá” e “cá”.

Amâncio, dono da venda única, é a própria representação do poder econômico. É sua venda que escoa os bens de Manarairema e é ele o maior interessado no novo fluxo de negócios que os forasteiros potencialmente trazem consigo. A possibilidade de serem ciganos ou nômades desmantela-se prontamente, pois acampam “em linha, duas fileiras certas, medidas (...) Fincaram mastro, fizeram fila para comer” (págs. 4-5). Neste ponto, o olhar um pouco mais arguto percebe que a opção pela tapera, a soberba e a arrogância na ocupação e a disposição do acampamento sugere, no mínimo, a chegada de uma milícia das Forças Armadas.

O dono da venda, sem saber exatamente por que, imediatamente se sente atraído pelos forasteiros, tomando partido deles contra a resistência de Geminiano. O tempo, porém, transforma a curiosidade em acomodação, indiferença. O carroceiro também cede e presta, por fim, serviço aos invasores.

Amâncio, um dia, cansado dessa indiferença, resolve, na valentia, desfazer o mistério e visitar a tapera ocupada. A partir daí, a ida e volta do comerciante resulta numa ação transformadora e percebe-se então o caráter negativo dos homens: Amâncio torna-se uma espécie de preposto deles, embaixador, intermediário, ama-seca. Geminiano pouco a pouco experimenta uma espécie de escravização ao vender sua força de trabalho. O vendeiro troca a coragem pela subserviência cega e o carroceiro sente a sua degradação moral. A tapera opera uma sistemática inversão de valores em Manarairema.

A passagem “quando parou na porta da venda, dela desceram três homens vestidos com paletós de cinto e bolsos com tampo e botões (...)” (pág. 28) nos conduz, inevitavelmente, à descrição de um fardamento militar. Os detalhes nos parecem claros e irrefutáveis, visto que denotam, inclusive, o aspecto da uniformização dos três “elementos”.

A invasão dos cães se verifica em seguida à capitulação de Geminiano. Ela é anunciada três dias antes pelo alarido noturno que ameaça o sossego do vilarejo. Embora animais domésticos ou domesticáveis, a sua chegada é assustadora e o seu comportamento desaloja o homem de seu conforto cotidiano. A reação do povo passa por duas etapas: a primeira, de defesa; e a segunda, de subserviência. A verdadeira agressão ocorre, porém na segunda etapa, em que o homem, pensando domar o animal, é por ele dominado. Processa-se, então, uma inversão de papéis que se transforma em crivo pelo qual passa a relação do homem com o mundo e consigo mesmo: “a ordem era respeitar os cachorros. Foi um tempo difícil para os puros, os ingênuos, e os de boa memória” (págs. 36-37).

Ora, os cães procedem da “disciplina da tapera” (pág. 37). E muito provavelmente, obedeceram aos homens de uniforme. Após a retirada dos cães – inexplicável como sua chegada – uma nova dupla de cidadãos manairaremenses “duela” personalidades: Manoel Florêncio e Apolinário, marceneiro e ferreiro, respectivamente. José J. Veiga não os escolhe à toa. A adesão e/ou subserviência aos homens da tapera está diretamente relacionada às suas profissões. Florêncio é marceneiro, e, como tal, habituado a lidar com a maciez da madeira; Apolinário, ferreiro, é rígido como sua matéria-prima, irremovível, convicto e nada cede aos homens. Os ofícios são, naturalmente, metáforas de suas integridades também, e há aqui uma gradação que deixamos passar: Geminiano, Florêncio e Apolinário. Entrementes, Amâncio recebe um major na venda (pág. 44), confirmando, nominalmente, de forma categórica, a patente militar dos ocupantes.

O episódio com Mandovi, filho de Apolinário, funciona como um preâmbulo para seu pai. Está ali, no pequeno vendedor de cigarrinhos enrolados a mesma forja ígnea do pai-ferreiro. A pressão exercida por Geminiano, Florêncio e Amâncio a Apolinário é insuportável, sufocante. O ferreiro clama por seus direitos (pág. 47), a esta hora, inexistentes, visto que há um regime de exceção instaurado, já extrapolando os limites da tapera. Apolinário finalmente atende aos apelos de Amâncio e vai até a venda conversar com os homens. A esta altura, ir até lá não significaria ceder. Tem lugar, então, um nítido interrogatório (págs. 68-70), onde transparecem a falta de preparo, as contradições, a ausência de critério nas questões: não há, afinal, motivos para tal, e a inépcia transborda nas personagens Neiva e Chaves, dois típicos nomes-de-guerra, que nos parecem bordados sobre os bolsos.

Como narrativa hiperbólica gradual, chega a invasão dos bois. Se os cães representavam a ocupação espacial, os bovinos são a própria sufocação física, nítido clímax e epílogo de uma situação-limite. Trazem o peso de um silêncio, a condenação muda à inércia, à estagnação, à decomposição, sem qualquer possibilidade de comunicação com o meio exterior. Em meio a uma ocupação sem precedentes e de caráter apocalíptico (pois tudo se acabava e ruía), o único preso de Manarairema, Joaquim Rufino, é um músico. Temos aqui, novamente, uma alegoria: é notório que, durante o regime militar, os intelectuais que sofreram maior perseguição política foram os músicos e os jornalistas, em função, evidentemente, de seu grande poder de veiculação e difusão de idéias e informações.

E a invasão de bois termina como a dos cães, inesperadamente e como que obediente a uma ordem. Há, porém, algumas diferenças entre as duas retiradas. Os cães chegam de manhã, quando a “cidade estava engrenando na rotina de tomar café, do regar horta, do varrer casa, do arrear cavalo” (pág. 34). E se vão uma tarde, ao escurecer. A resposta da cidade vem em seguida, em forma de retração espacial e espiritual (pág. 38).

A saída dos bois se dá também à noite, libertando os espaços exteriores e interiores. Mas é só descoberta pela manhã, quando, em contraste com o retraimento, o silêncio e a mudez que se seguiram à partida dos cães, a população reage, nesse início de dia, em um movimento de expansão: “gente chamando gente, sacudindo gente, arrastando gente para ver, todas as janelas se abrindo, por todos os lados a claridade, o desafogo. Gente rindo, gente pulando, e se abraçando, e dançando na lama, gente se vestindo às pressas e correndo para a rua, esmurrando as portas dos vizinhos, gritando, disparando armas de fogo” (pág. 95). A anáfora renitente do termo “gente” parece-nos remeter a uma re-ocupação desse espaço, agora “inundado” por seus habitantes, legítimos ocupantes de Manarairema.

Com esse movimento que prenuncia o fim do sofrimento imposto pelas invasões, é Geminiano, o contato inicial, quem anuncia a partida dos homens da tapera.
A narrativa é encerrada como se o tempo estivesse retornando de uma suspensão parcial. As invasões imprimiram outros valores e ritmos a Manarairema. Agora, a cidade retomaria a velha ordem que deixara para trás.

Conclusões

Um dos principais eixos temáticos dos realismos “irrealistas” na literatura brasileira contemporânea – aqui abarcando os aspectos vários do grotesco, do absurdo, do fantástico e do maravilhoso – reside na crítica velada ao poder imposto pelo Estado brasileiro nos anos 60.

Em A hora dos ruminantes, publicado em 1966 e, portanto, dois anos após o golpe militar, J.J.Veiga projeta em metáforas complexas a realidade de um regime de exceção.

O cenário interiorano composto pelo autor mato-grossense, que é central em sua obra – aqui não experimenta a mesma reflexão trazida por outros livros seus (Os cavalinhos de Platiplanto, 1959 e A máquina extraviada, 1968), onde nos parece que há, sobretudo, um estranhamento cultural gerado por um fator sempre invasivo, perturbador. É interessante relevarmos também um traço comum entre A hora dos ruminantes e Objetos turbulentos (1997), seu último livro: a ameaça, o medo, o horror vêm de fora, não desencadeados pelo desejo de seus habitantes, mas por razões incompreensíveis.

O bucólico pintado por Veiga é uma transcrição serena de uma situação amena, subitamente molestada por fatos alheios, como se sofresse uma contaminação/infestação. Essas narrativas resvalam ora para o parodístico, ora para a sátira aguda. Ousaríamos dizer que há, em José J. Veiga, uma tendência em tipificar em seus cenários um “locus amoenus pós-moderno”, desordenado/ desconcertado por arbitrariedades externas.

Em A hora dos ruminantes, porém, verificamos – através de um levantamento de termos e situações no texto – que as relações entre a tapera e a vila de Manarairema impõem uma violência tanto psicológica quanto física, justificada por uma necessidade dos “homens de uniforme” em caracterizar e balizar as fronteiras de seu poder espúrio.
Neste caso, o caráter inusitado e absurdo (levados à hipérbole) de uma invasão gradual de matilhas e manadas traz não só a idéia de confinamento e sufocação, mas de uma indiferenciação entre homens e animais numa sociedade livre e sem conflitos de poder, tal como sucede em Manarairema.

A correspondência entre o Brasil pós-64 e os episódios passados no povoado transcriado por Veiga nos pareceu indissociável.