| Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 103 - Outubro de 2004 |
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A DANÇA INTERIOR Gerson Valle Em sua “Ode à Alegria”, tornada universalmente famosa por ter Beethoven utilizado-a em sua Nona Sinfonia, Schiller enaltece o “espírito” da Alegria como sendo um dom divino, filha do alto Eliseu, dizendo que ela nos devolve o que “a moda” nos roubou. Eu diria, hoje em dia, “o que o século XX nos roubou”... Em meu artigo de agosto de Poiésis, a propósito do recital de Nelson Freire no Festival de Inverno ocorrido em julho em Petrópolis, eu me refiro à frase bombástica de Otto Maria Carpeaux em seu livro “Uma Nova História da Música”, de que o “assunto” ali tratado tinha-se esgotado. E interpreto-a como tendo o fenômeno musical substituído, sobretudo no período tonal, a decadente religiosidade ocidental, por ser o sistema tonal dotado de uma estrutura que parece homenagear o centralismo universal atribuído a Deus nas religiões, e por procurar uma expressividade que equivale a sentimentos e percepções saídas do interior do indivíduo, em conjugação, na linguagem sem significado expresso da Música, com alguma fenomenologia universal, inclusive das intuições sobre o desconhecido... No século XX, com a “desconstrução” da tonalidade, o fenômeno, dentro da criação, parece ter-se esgotado. A “sensação” religiosa das músicas que procuravam uma expressividade representativa maior torna-se ainda existente, no entanto, em interpretações como as de Nelson Freire, que tira sonoridades inefáveis de seu piano. Recebi uma crítica curiosa sobre este comentário. Não no que diz respeito à sonoridade de Nelson Freire, ou à idéia de que um bom instrumentista possa dar um “tom” religioso à sua interpretação, mas porque eu exemplificava tal fenômeno também no campo da regência orquestral. Criticaram-me, dizendo que o maestro não produz sons. Que tudo depende da qualidade dos músicos que dirige... Mário de Andrade
comentava que a sincopa, tão encontrável no nosso populário,
não seria expressa com o realismo devido se anotada conforme então
se fazia. Propôs mesmo que se pusesse alguma pontuação
(pausa) suplementar para que tivesse o gingado com que sai nas manifestações
populares. A anotação precisa é complicada, e neste
sentido certa feita o maestro Ernani Aguiar observou-me que a regência
de Lorin Maazel dos Choros nº 6 de Villa-Lobos pecava por não
conseguir a naturalidade das sincopas como ocorre, por exemplo, numa escola
de samba. Que ele tornou o ritmo duro, congelado, pois não se basta
tocar o que está escrito. Que é preciso um gingado que só
quem tem familiaridade com a nossa música consegue fazer. Na verdade,
há aí na escrita uma quase que impossibilidade de anotação
das frações de tempo e de sua variação que
depende da marcha própria que o ritmo toma por um sentimento interno
do intérprete, que é o seu pulsar próprio. Tenho
por mim, no entanto, que a sincopa não é um caso isolado
da anotação musical congelar o que é a “dança
interior” de onde parte toda Música. Radicalizo? Vejamos
por partes. A “representação
interior mística” torna-se mais evidenciada, pela busca da
expressividade, no período predominantemente romântico da
História da Música. Este é maior que nas outras manifestações
artísticas ou literárias, podendo-se mesmo dizer já
vigorar num Don Giovanni de Mozart, ou em seus concertos para piano e
orquestra (sobretudo do de número 20 ao 24), do final do século
dezoito, até certos compositores que morreram no século
XX, como Mahler, Richard Strauss, Ravel, Rachmaninoff. Puccini, Villa-Lobos,
Profofiev, etc O que caracteriza mais tal Romantismo é a expressividade
melódica. As frases musicais – melodias – se sucedem
como querendo manifestar sentimentos, sejam amorosos, puramente religiosos,
alegres, trágicos, etc. Entretanto, a Música, já
mesmo antes do Romantismo (do tal “Romantismo datado”) buscava
a “expressão” que tachamos genericamente de “romântica”.
Isto já está bem visível num Prelúdio e Fuga
nº 8 do 1º caderno do Cravo Bem Temperado de Bach, por exemplo.
Ou do Agnus Dei de sua Missa em si... O que digo? Está em todo
Bach, como é imanente num final de um “Dido e Enéias”
de Purcell... Por que dar exemplos? Já se encontrava mesmo no princípio
do século XVII na dramaticidade dos recitativos de um Monteverdi!!!
E aí a tese do “Deus-tom” pode ser revista para “Deus-modo”,
ou sei lá que outra comparação que tente justificar
o “sentimento” de afinidade entre o interior do indivíduo
e a admiração “mística” por seu entorno...
E para que tais peças musicais atinjam sua finalidade expressiva,
necessita-se que o intérprete acentue determinadas características
de sua “dança” (ou “balanço”) que
não correspondem obrigatoriamente aos tempos certos da escrita,
seja alongando algumas notas, encurtando outras, dando-lhes sonoridades
especiais, etc. Por conseguinte, é necessário que a Música
seja “interpretada” para transmitir seu “sentido”.
Não basta estar escrita. Desde os primeiros
compassos do primeiro movimento, Kurt Masur coloca a orquestra repetindo
notas em compassos sem vida... Lembrei-me da “porrada” desta
primeira seqüência na antiga batuta de Toscanini!!! Que diferença!
Os alemães da orquestra regida por Kurt Masur (Leipizig) podem
até ser melhores músicos que os da NBC do Toscanini. Mas,
conforme depoimento de dois músicos americanos desta orquestra,
em um documentário sobre Toscanini, quando ele se punha nos ensaios
e concertos com a batuta na mão, os músicos executavam de
forma que não se acreditavam capazes. Era a orquestra que cantava
e “dizia coisas” (verdadeiras orações!). É
claro que o carisma e sua vontade férrea de dar tal ou qual sentido
que ele “lia” nas partituras que estudava sempre a ponto de
decorá-las, é que tirava dos músicos a interpretação
que já não era das cordas, nem dos sopros ou percussão.
Era da orquestra. Era de Toscanini!!! Conforme muito bem coloca Harold
Shonberg (quando perguntado por Luiz Paulo Horta sobre as diferenças
das orquestras novaiorquinas de 1950 à década de 80): NÃO
EXISTEM ORQUESTRAS; EXISTEM MAESTROS!!! Após o pós-romantismo, com a intenção mesma de se contrariar todo o aspecto “expressivo-sentimental” que deveria ser considerado fora de moda, a Música se viu, no século XX, como as demais manifestações artísticas, em uma transformação radical. Como muito se diz, d’après Derrida, há uma “desconstrução” permanente de nossos mitos, História, testemunhos... Em Música, a “desconstrução” teve por fim fazer-se a autópsia do que consistia a tonalidade, as regras da Harmonia, tudo que se construíra em mais de dois séculos, contrapondo-se-lhe outros sistemas e sentidos contrários de representação semântica. O atonalismo, a música eletrônica e concreta, a anotação excessivamente precisa para cada nota do pontilhismo weberniano, a música cibernética, etc, vieram tirar do intérprete este papel que descrevo, e que o colocava junto a todo músico, fosse do popular ou do concerto, com seu “suingue” natural de quem canta independentemente do escrito e do racionalizado (ou “conceitualizado”), que parece ter sido o caminho da modernidade no século XX. Mozart, Schubert, Brahms, Villa-Lobos, se se encontrassem com Francis Hime ou Antônio Nóbrega, aposto que improvisariam com eles. Os “racionais” dos modernismos do século XX não. Perderam a espontaneidade de soltar suas “danças interiores” e assim desprezam qualquer vinculação com o popular (mesmo quando bem piores músicos que os “populares” citados...). Mas, isto não quer dizer nada em definitivo. Eu, pessoalmente, posso não me entusiasmar com um “Pierrot Lunaire” de Schoemberg como com um “Liederkreis” de Schumann. Entretanto, sei lá se daqui a 150 anos as séries de um Pierre Boulez, p. e., não serão encaradas com toda a “seriedade” (e sem trocadilho) de algo verdadeiramente necessário enquanto Arte! Daí a não podermos prejugar o que nos está próximo no tempo. Mas, também, não devemos, por medo de errarmos historicamente o julgamento, nos deixarmos fazer de bobos, em audições de repetidos silêncios, aleatoriedades intermináveis, sons mecânicos gravados e regravados piores para os ouvidos que uma britadeira... tal como nas artes visuais se vêem exposições de bobagens e bobagens seguidas elevadas ao nível de arte, tudo por conta da conceituação duchampiana!... De qualquer forma, a “Alegria, dom divino”, conforme comentei no início do artigo, e que nos vem da “dança interior” que nos comunga numa “reza” com o Universo, a criatividade no século XX nos tirou! Dela, ficamos com as interpretações de instrumentistas, cantores e maestros de um legado fabulosamente rico do passado... A tal da “conceituação
duchampiana”, aliás, foi pior ainda do que se mostra em seu
campo de atuação na criação artística.
Pelo menos é o que me conta o crítico a meu artigo. Segundo
ele também os músicos de uma orquestra estão interessados
é na técnica intelectualizada e não na expressão
de um maestro... Narrou-me ele seus conhecimentos com estudantes de música.
Que têm dificuldade quanto ao acesso às grandes obras da
História da Música, e não se esforçam muito
por conhecê-las. Os conservatórios, por sua vez, não
se esforçam por terem discotecas, e os cds são caros. Muitos
músicos buscam vaidosamente uma carreira de solista, tocando em
orquestra por obrigação, sem se interessarem pelo sentido
coletivo da “missa” que é a participação
num concerto, pois não se habituaram nem sentem a necessidade de
“orar”, “expressar seu íntimo na dança
mística”, não podendo os maestros exigirem deles mais
do que marcam nos compassos, interessando-lhes somente a teoriazinha que
os possibilita ler os signos musicais, sem saberem nada do que representa
o significado interior do que tocam, por desconhecimento de seu valor.
Sob este aspecto, há um pouco da “conceitualização”
mais do que a prática musical verdadeiramente interiorizada. Para
eles tanto faz que seja uma peça vulgar ou uma obra-prima de nossos
sentires! Parece que, em geral, pela dificuldade material de sobrevida,
não querem saber de ensaiar mais do que o tempo obrigatório
de seus contratos. Acho que estes músicos erraram de profissão.
Deviam ser bancários. Não que eu ache que seja inferior
o trabalho em banco, mas é que tem características diferentes
daquelas de quem se propõe a expor a alma humana através
dos “sons sondados” em seu próprio interior, a partir
de uma realidade histórico-cultural. A não vivência
do músico com as obras fundamentais do repertório internacional
(e, inclusive, com as peças modernas e contemporâneas, que,
afinal, como já observei, estão em fase de consolidação
no gosto e “temperamento” de músicos e platéias,
podendo somente o futuro melhor selecioná-las) me parece uma impossibilidade
da compreensão da carreira. É a mesma coisa que, após
eu sentir que sou escritor, jamais me interessasse em conhecer Cervantes,
Balzac, Dostoievski, Machado, Tolstoi, Guimarães Rosa, Thomas Mann,
todos estes caras que prezo tanto a ponto de tê-los como parentes
e amigos. Pode-se ter preferências, é claro, mas uma obra-primíssima
como, p. e., o citado “Mestres Cantores”, se ignorada ou desprezada,
é o mesmo que não se conhecer ou não se gostar de
“Guerra e Paz” de Tolstoi - cito duas obras que trazem consigo
diversos valores de obras congêneres, de forma significativa. Quem
se inibe ante suas extensões é porque não tem afinidade
com suas linguagens, aborrece-se ante seus “encantamentos”
– melhor seria se fosse um bancário! E aí, mais uma
vez cito Brahms, quando declarou: “Poucos alemães conhecem
tão bem Os Mestres Cantores quanto eu”, o que fora resultado
de sua dedicação e amor a esta obra! Isto é a humildade,
que faz da Música um sacerdócio. Não ter a tolice
de considerar os posicionamentos pessoais acima da Arte (Wagner ridicularizava
Brahms em público. Mas, este, ao ler uma obra-prima, ignora que
seu autor é seu adversário, e entrega-se a ela, ama-a!!!).
Deve ser dada ao músico de orquestra como ao coralista a compreensão
do papel fundamental que cumprem no concerto geral do fenômeno musical.
Uma profissão de uma dignidade absoluta, e de grande significado
espiritual. Cabe às escolas de Música, portanto, mudar o
tratamento na formação de nossos músicos, mostrando-lhes
o encanto da viagem ao “interior” de si mesmos, vivenciando
coletivamente a emoção do material que lhes é colocado
para transmitir, tocando com prazer, na espontaneidade de um músico
popular, e não acharem que a simples técnica é Arte
ou Ciência, ou menos ainda que a sonorização automática
das notas escritas, marcando-se o compasso, possa justificar um público,
uma Arte, a dedicação de uma vida!... |
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