| Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 102 - Setembro de 2004 |
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Conto: Gerson Valle Zélio Ursino
cansou-se de seguir telenovela. Não que algum dia tivesse sido
aficionado no gênero. Mas, volta e meia, não sabendo o que
fazer sozinho no apartamento, com a mulher e a filha atentas na telinha,
sentava-se também ao lado delas, seguindo as peripécias
repetidas ao longo de meses, por personagens que acabam sendo parte das
famílias brasileiras. É até difícil conversar
com os colegas de trabalho ignorando as últimas façanhas
de tais personagens. No entanto, por causa desta compulsoriedade da integração
da novela em nossas casas, com todos os seus tipos mal engendrados (é
como se conviver, forçadamente, com uma multidão de aleijados
de espírito), Zélio percebeu que estava se tornando cada
vez mais irritadiço. Desde a infância tivera o hábito
da leitura, de onde lhe vinha certo senso crítico. Hábito
e senso que parecem rarear-se hoje em dia, inclusive nos personagens das
novelas, que tanto podem espelhar como serem copiados na vida real sob
este aspecto. Sua filha e coleguinhas, por exemplo, pareciam seguir, por
algumas observações e atitudes, certos estereótipos
dos personagens telenovelescos... Isto o irritava, e, talvez, até
motivasse a sua presença na sala, na hora da novela, para, ao menos,
fazer uma ou outra observação que motivasse alguma reflexão.
Afinal, como pai, sentia-se co-responsável pelos péssimos
modelos de pessoas que invadiam sua casa. Irritavam-lhe sobremodo as faltas
de verossimilhanças, personagens que variam suas personalidades
e atitudes na dependência das estatísticas sobre as preferências
do público, perdendo toda a coerência e significado, diálogos
forçados... Aquela gente toda desfilando em roupas e ambientes
que não existem nos lugares que se pretendem, tudo arrumadinho,
e numa interpretação de quem acabou de ler o papel, artificial.
Tudo artificial, que saco! Deixava-o de péssimo humor, também,
a circunstância absurda, que é pressuposto das tramas: todos
os personagens se conhecem, como se o mundo fosse feito só deles,
tudo se passando somente em seu próprio círculo (afinal,
são os mesmos atores em meses de história continuada!)...
Criticava o fato de que as “coincidências” são
obrigatórias para que as novelas possam articular suas tramas.
Assim, os personagens têm sempre de se encontrar, “por coincidência”,
nos restaurantes, viagens (mesmo que se vá a países distantes...),
praias, etc. Isto quando não ouvem, “por coincidência”,
atrás da porta, os segredos que formarão os conflitos, para
facilitar a continuidade do enredo... Talvez tenha sido o exagerado número
de coincidências que fez Zélio cansar-se das telenovelas. Se fosse logo após a separação, teria fingido que não a vira, ido para outro lugar, mas após vinte e tantos anos há até uma curiosidadezinha, pois alguma novidade deve haver. E, depois, as mágoas todas já se foram. Outras tomaram-lhes o lugar, com outras pessoas e situações. O passado é apenas um quadro na parede, que distrai nosso olhar, mas já não interfere em nosso humor. Onde estão, hoje em dia, os jovens Zélio e Glória, que simpatizavam com os grupos que então combatiam a ditadura militar, mas nunca se filiaram a nenhum deles, acreditando que suas leituras e discussões (Ah, como discutiam!) poderiam levá-los a outro tipo de participação, num humanismo que, verdadeiramente, idealizavam? O lugar do reencontro casual foi, num domingo, na rodoviária de Petrópolis. Ele viera comprar passagem para voltar ao Rio no dia seguinte, depois de um fim de semana na casa de veraneio dos pais de sua companheira em Itaipava. Iria deixar o carro com ela durante a semana, desceria ao Rio de ônibus, voltando no outro fim de semana para continuar o veraneio em família. Glória estava
com uma filha, Suzana, de uns vinte anos. Tinha sido, conforme apresentou,
do seu primeiro marido. Casara-se uns dois anos depois da briga em definitivo
que tiveram. “Briga em definitivo” porque ”provisórias”
houve várias... A expressão “primeiro marido”,
aliás, soou-lhe estranha. Eles não viveram sob o mesmo teto,
o que se chamava de casal moderno à época, no modelo de
Sartre e Simone. A mocidade toda juntos, pomba! Como é que só
depois ela teve um primeiro? Sim. Casara-se (oficialmente) e separara-se (oficialmente) duas vezes. Agora vivia com um cara (não oficialmente). O percurso era mais ou menos igual ao seu. Também se casara uns dois ou três anos depois da separação “definitiva” da Glória. Separara-se em pouco tempo de casado (e isto ele não lhe diria nunca, mas talvez a futilidade de sua “primeira” mulher, fechada em seu mundinho “socialite”, foi por demais chocante, depois da relação inflamada com alguém tão, digamos, “substancial”, como a Glória). Ligou-se em seguida a uma louca, meio “hippie”, que quase destruíra sua resistência, por trocar os dias pelas noites, obrigando-o a ir para o trabalho sem dormir (em sua juventude, em geral as pessoas lidas faziam questão de demonstrar-se adeptas de um mundanismo materialista, fumando, e tinham sua sociabilidade acentuada nas mesas de bares, batendo intermináveis papos, bebendo. Tais hábitos, adicionados ao idealismo de um mundo mais justo, sem preconceitos, de “paz e amor”, poderiam aproximá-las do simpático movimento “hippie”). Não agüentou esta situação por muito tempo. Finalmente juntou-se à mãe de sua filha, com quem parece “ficou em definitivo”. Quando a conheceu, achou que finalmente estava com alguém mais razoável, sem as preocupações de afirmações próprias em discussões ideológicas como tivera com a Glória (viviam, na exuberância da juventude e idealismos, como se estivessem resolvendo a sorte do mundo), nem as futilidades que no primeiro casamento levaram à separação, nem, evidentemente, a boêmia que o fizera quase envelhecer antes do tempo... Sua companheira “definitiva” não lera Balzac, muito menos Karl Marx... Iria viver a normalidade dentro dos costumes do tempo. Só não esperava pelas telenovelas... - Mais ou menos como todo mundo de nossa geração... – comentou Glória ao ouvir a narrativa da sucessão de suas ligações amorosas. Ele nunca gostara muito daquela forma dela falar de si mesma, ou deles (no passado) como uma professora de Sociologia (que ela era, de resto), colocando-se como um caso da coletividade. Não se aborreceu, no entanto. Era apenas um encontro casual; saber das novidades, matar certas curiosidades, e depois, quem sabe só daqui a vinte e tantos anos deparararia com ela de novo? Mas o que houvera entre eles tinha sido, decididamente, muito forte... Era chata a comparação com outras pessoas de sua geração. Eles acreditaram no amor de uma forma quase mística. Não é qualquer ligaçãozinha amorosa que se possa comparar à devoção de tantos anos... Por outro lado estava tudo distante... Era melhor deixar pra lá... Na verdade, nem lembrava direito das integrações e desencontros que viveram (e que, por tanto tempo incomodaram...). Só achou que havia certa familiaridade nos modos da filha. Não com ela. Nem tampouco com os pais dela... Ou com pessoas da família dela que conhecera. Tinha qualquer coisa é com a sua própria filha... Que gaiato! Vai ver que os programas de televisão, além de uniformizarem os gostos de toda essa geração, também produzem semelhanças nos traços de todo mundo... - Você notou, também? - perguntou Glória, exatamente quando ele pensava na semelhança das duas moças, e que Suzana fora comprar as passagens, numa fila na bilheteria, enquanto os dois tomavam um cafezinho. - É incrível como ela se parece com você... Mas, qual a sua idade?
Quando ela nasceu - e isto ele soube por um amigo comum - os dois já
se haviam separado, com certeza, para mais de cinco anos!... Fiel em termos, ele pensou. O nome Suzana saiu de onde? Uma vez ela vira sua rubrica com as iniciais ZU, onde o Z parecia um pouco um S, e passou a chamá-lo, carinhosamente, de Sussu... Não sairia daí o nome Suzana para a filha? E a homenagem a ele no nome, não seria uma espécie de traição ao pai verdadeiro de Suzana? Talvez estivesse “romanceando”... Mas, os dois foram importantes um para o outro, não há a menor dúvida... Ele, inclusive, fora seu primeiro namorado, coisa que, antigamente, ainda marcava na vida de uma mulher. Olhou-a de forma um tanto ambígua, o que a fez entender sabe-se lá o quê, e dizer coisas que bem demonstravam já nada saber de sua maneira de ser, talvez confundindo-o com algum outro conhecido: - Escuta, Zélio, os mortos não mandam flores. Só as recebem. Também casais do tempo de D. João Charuto (e olha ela de novo nos classificando, ironizando...) não marcam encontros em motéis. A gente não iria encontrar nosso passado lá, não é? Eu estou bem com meu namorado. Você com a sua. Foi bom a gente ter se encontrado. E você ficar sabendo desta minha dúvida. - Que dúvida? - Suzana... Como é que pode? É muito igual a você. Os mesmos modos, desde que nasceu... Para mim isto sempre foi um desconforto... Você sabe como eu gosto de entender as coisas. Tudo sempre bem claro. E por mais que eu reflita, a coisa me parece absurda! Teria algum espermatozóide se alojado e conservado, durante anos, e, um belo dia, sido fecundado, dentro de mim? Zélio conteve a tempo a gargalhada que queria explodir. Aquela pessoa estranha em sua frente, que foi a Glorinha tão sua no passado, de repente lhe dizia aquele disparate, o que a tornava menos séria do que sempre se dispusera ser – será que ela se afeiçoou, como toda gente em toda parte, às inverossimilhanças e imaginações doentias das telenovelas? Isto, por si, dava vontade de estourar numa gargalhada, quase como uma vingança tardia de algumas ironias que sofrera de sua feição crítica. Acabou, em sua boa educação, para não ofendê-la, afinal uma estranha!, dando apenas um risinho. - Por favor, não ria. Isto, para mim, é motivo de preocupação. Não sabe o quanto já me aborreceu... Agora, tenho dedicado minhas leituras às ciências, sobretudo à Genética. Quem sabe, não está aí uma realidade que precisa ainda ser pesquisada? Estou com vontade de voltar aos bancos escolares, fazer novo vestibular... Reconheceu alguma coisa de que já se tinha esquecido. Aquele raciocínio, e o “voltar aos bancos escolares” para uma nova carreira, quando a dela parecia vitoriosa (ouvira falar algo a respeito algum dia...), tudo aquilo lhe fez lembrar a sua maneira de ser. Era bem a Glória! E o “caso” estranho da “coincidência” ser encarado como motivo de estudo, algo da natureza que precisa ser conhecido. Como sempre, compreendia sua própria vida como “um caso científico de observação”, como afinal fora o namoro dos dois, que terminou quando ela o taxou de “patológico”... Despediu-se dela com um beijinho amigável, mandando lembranças para a filha que não voltara da fila para a compra das passagens. Devia estar batendo papo com um grupo que, pareceu-lhe, estava com as duas. O passado, para Glória, ficara pendurado na parede como um quadro, mesmo. Gostaria sempre de apreciá-lo, talvez, para entender-lhe bem a estética, na certeza de que ele não sairá com vida, a perturbar-lhe as novas descobertas... E, se lhe transmitir algum sentimento mais intenso, com suas cores fortes, ela irá recortar a fazenda da tela, para estudar-lhe o feitio. De que será que se compõe o feitiço das coisas? Pode até ser que Suzana seja sua filha, que alguns cromossomos do amor não se percam nunca, e, a qualquer instante, estejam prontos para uma nova vida... E ele, com esta idéia, encarou até com mais simpatia a “científica” maneira de ser de Glória. Com a afeição dos namorados pelas idiossincrasias de suas namoradas... Mas, é certo, com o distanciamento do quadro de parede, que não levamos a motel... O distanciamento do amor, a dúvida sobre o que fica, se é que fica; alguma coisa não tratada pelas simples coincidências das novelas de televisão. Mas, as coincidências ocorrem. O que pode fazer depois do encontro com a Glorinha? Mesmo sentindo certo
enjôo, alguma coisa nele fez voltar a fazer companhia à mulher
e à filha, quando estas se penduram na historinha televisiva, sem
mais muita reflexão analítica. Não queria isolar-se
da família, da companheira que escolhera para a tranqüilidade,
ainda que medíocre, de uma vida que se adapte aos padrões
de seu tempo, lugar, sem ter de contrariar costumes, nem se meter a mudar
o mundo sem dele ter maior responsabilidade que o dia a dia de seu trabalho.
Que as coincidências atropelem as construções dramáticas,
infantilizando-as, infantilizando todo o público, inclusive ele...
Entregava os pontos. De certa forma, já quando namorava a Glória,
apesar de todas as discussões ideológicas e até participações
em passeatas, eles tinham optado por esperar o momento de atuação
mais decisiva, achando que seus gostos, intelectos, poderiam influir nalguma
mudança num futuro impreciso. Assim, desde aquele tempo ele não
era dos que atuavam. Esperar... Isto ele já não fazia. Seu
trabalho não era em nenhum campo publicamente decisivo, tendo,
digamos assim, uma faceta mais privada, forçando-o até a
tomar decisões que contrariavam sua formação. Mas
sobrevivia, ele e a família. E deixava adormentar tudo que lera
e sonhara... Pode ser que de todo o desperdício de energia vital,
por noites e noites seguidas de chateações televisivas,
ainda restem, de todos nós, realizações menos dolentes.
Em nossos cromossomos escondidos, alimentados por matéria orgânica
de um amor esquecido, mas com vida e vigor próprios. E que algum
dia arrebenta, trazendo ao mundo um sopro novo, alguma coisa que foi nossa,
séria, destemida, como um namoro idealizado e todos os desejos
de atuação que ficaram latentes olhando a telinha... |
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