Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 101 - Agosto de 2004


AS QUATRO FACES DA MORTE

Pedro Lyra
poeta, faz Pós-Doutorado em Tradução Poética na Universidade de Paris-III/Sorbonne.

Fernando Py é um dos muitos poetas brasileiros criticamente injustiçados pela prática de outro(s) gênero(s). Como um Machado de Assis, como um Mário de Andrade, como um Gilberto Mendonça Teles, a grandeza de sua poesia vem sendo ofuscada pela tenaz dedicação à crítica jornalística. Não há, praticamente não há poeta brasileiro contemporâneo de alguma relevância que não tenha sido por ele recenseado de seu abrigo em Petrópolis. No entanto, e numa dolorosa ironia, a sua poesia está quase que ausente nessas sem critério antologias e balanços que abundam por aí, cheios de nomes e textos bem menos expressivos que os dele. Essa desconhecida poesia se espraia por todas as quatro grandes vertentes da tradição discursiva da Geração-60: 1) a herança lírica — dominante em coletâneas como Aurora de vidro, A construção e a crise, Dezoito sextinas para mulheres de outrora e Sol nenhum, estendida da efusão amorosa à sondagem metafísica; 2) o protesto social — com Vozes do corpo, nos fortes textos da segunda parte; 3) a explosão épica — com Antiuniverso, longo poema que, em trecho transcrito na orelha, considerei dos mais belos e provocantes de toda a nossa história, típico da vertente épica dessa geração; e 4) a convicção metapoética — com vários poemas também dispersos em toda a obra.
Agora — retomando a linha metafísica da herança lírica — ele reúne uma série de novos poemas sobre a morte, num pequeno volume acrescido de outros de livros anteriores. (Fernando Py. Sentimento da morte & Poemas anteriores. Goiânia: ASA Editora Gráfica, 2003, 70p.)

Num breve metapoema de Apresentação, adverte que focaliza “não apenas a morte física / mas a que passa a fazer parte / de tudo que se abandonou. / Também a que se vai colhendo / na tristeza, no pessimismo / da vida inteira, dia a dia” (p. 9). Portanto — sem perspectiva transcendental — temos a morte sob quatro faces: como fim, como perda, como falta e como passado.

E é com toda dignidade que ele a aborda: nenhum estéril desespero, nenhuma impotente revolta, mas a serena aceitação de sua fatalidade, como tributo final do indivíduo a uma existência que não terá sido inútil. E a esperança de superá-la pela poesia.

Como passado, talvez seja a mais constante, pois que a cada dia ele se acrescenta com o que acabamos de vivenciar, e já morreu. Dentre todos, o sema mais provocante é o da infância, com a extinção da inocência e de certas ilusões, como em ‘Fui eu’: “Fui eu: e da figura só ficou / o olhar desenganado, na fumaça / em que a criança inteira se mudou” (p. 11).

Como falta, é sobretudo a ausência de conhecimento, com a ignorância a manter os limites e mistérios da condição humana, que nem a ciência nem a filosofia conseguiram (ainda) ultrapassar ou desvendar, o que poderia conduzir à sua neutralização. Essa angústia está plena em ‘Indagações’: “Aonde vamos? Aonde / repousará nossa alma / a contínua indagação / que nos eleva além / de simples animais?” (p. 25).

Como perda, é uma parcela de vida suprimida com a privação do objeto perdido — seja uma perda individual, como a de uma pessoa amada ou de uma coisa qualquer, seja uma perda coletiva, como na eloqüente denúncia do entreguismo neo-liberal de ‘Vende-se um país’, com expressiva exploração semântica da ambigüidade do termo “venda”: “Extinga-se a soberania / extinguindo-se / toda idéia de honra, / cada vez mais se vende / cada vez menos livre / essa nação se vai vendendo / e às gentes se colocam vendas / para que não percebam” (p. 20).

Como fim, ele não cai no equivocado lugar-comum de considerar a morte como o oposto da vida. Ora, o oposto da vida é o nada — não a morte, mas a inexistência: o pré-nascimento e o pós-falecimento, margens existenciais (uma sem começo e outra sem fim) entre as quais decorre a vida como um breve “intervalo” (p. 31). Ele a encara e enfrenta como o que de fato é: o instante de ruptura do elo entre a consciência e o universo, a morte de todas as outras mortes, e a conseqüente “solução” do mistério maior: o nada ou a eternidade. Individualíssima solução, apenas para o que acabou de morrer, já que ninguém voltou para nos informar. Ele evoca esse shakespeareano dilema no final de ‘Conhecimento da morte’: “Acabarei / como se acaba um inseto, um verme, / sequer tendo o gosto de saber / se um dia ressurgirei” (p. 17).

Não é agora, à entrada da casa dos 70 anos, que Fernando Py se volta para o tema: ele o vem questionando desde o início. Se há algum receio ou pressentimento na faixa geracional de velhice, já havia uma curiosidade na faixa geracional de juventude: logo no livro de estréia, ainda na casa dos 20 anos, ele atestava que “O pior é que passamos sem sentir” (p. 35); e na primeira parte de Vozes do corpo há um soneto intitulado ‘Quarenta anos’, onde confessa que, “Mesquinho embora, curvo e pungitivo, / meu corpo vibra e se deseja vivo” (p. 57).

E aqui reside o essencial da mensagem deste livro: sob a resignação à fatalidade da morte, lateja um profundo lamento — o universal lamento pela brevidade da vida ou mesmo pela sua não-eternidade corporal e terrena, já que a espiritual e celeste é muito incerta.

Como decorrência dessa limitação, a radical motivação de todo artista: a esperança de superação da morte pela arte; o secreto desejo de que a obra, que sacrificou e consumiu uma considerável parcela da existência, seja capaz de eternizá-la. Como este crítico espera que aconteça no caso deste poeta. Pois como ele mesmo escreve, numa espécie de resposta: “Não fracassa quem na vida / com seu próprio engenho soube / transformar a vida em arte” (p. 32).