Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 101 - Agosto de 2004


CAMINHADA NO CENTRO CULTURAL DO RIO DE JANEIRO

Ana Maria de Paiva Macedo Brandão e
Francisco Pontes de Miranda Ferreira

Formação das cidades brasileiras
Apesar do traçado das cidades brasileiras parecerem desordenados, era coerente com o sistema de vida da época. O objetivo principal era a defesa do território. Até o século XVII a maioria das construções obedecia um estilo primitivo – sapé, folhas e barro batido. As primeiras cidades possuíam características medievais árabes e européias e renascentistas. Ostentavam um traçado informal mas não confuso, a tortuosidade das ruas e pequenas passagens tinha um importante senso de defesa. No Brasil colonial as pessoas geralmente andavam a pé, a cavalo, em cadeirinha de arruar ou em rede transportada por escravos – fato que também influiu na forma urbana. O traçado urbano também acompanhava a topografia do local. As ruas e as construções seguiam o relevo dos morros, beiravam o litoral, os rios e os terrenos alagados.

A igreja tinha uma posição nobre, muitas vezes elevada no morro para ressaltar o sagrado. Os fortes eram colocados em posições estratégicas – nas entradas das baías e nos morros com vista geral, sempre levando em consideração o alcance dos canhões.

Os portugueses foram muito influenciados pela urbanização árabe devido aos 700 anos de ocupação. O estilo árabe adaptava as cidades ao clima quente e ao sentido de defesa. As ruelas e as construções evitavam os raios diretos do sol e as ruas tinham o máximo de sombra. A cidade muçulmana apresentava um traçado definido pelas casas e não pelas ruas como nas cidades romanas. Os portugueses também adaptaram largamente o azulejo mourisco e os aspectos de higiene tropical. Esta é a principal razão da presença da água corrente, tanques, chafarizes e bicas nas casas coloniais. As construções tinham a característica árabe de serem sólidas e simples pelo lado de fora.

Nas cidades medievais européias predominavam os quarteirões quadrados e retangulares e, também, ruas estreitas e tortuosas. As janelas e portas eram escassas devido ao medo de ataques.

A influência renascentista fica marcada pelas praças grandiosas e os mercados. A cidade renascentista procurava o sentido de monumentalidade com a praça principal – centro político, religioso e militar.

A Cidade do Rio de Janeiro
A cidade do Rio de Janeiro foi criada em 1567 como núcleo fortificado visando à defesa da baía de Guanabara. Após a primeira invasão francesa o pequeno povoado foi transferido para um local mais protegido em torno e no topo do morro do castelo. O espaço foi duramente conquistado através de dissecamento de brejos e mangues. A planície era extremamente arenosa e cheia de alagamentos, por isso a cidade tinha suas principais construções nos morros.

Corredor Cultural – Centro da cidade do Rio de Janeiro
Em 1984 foi aprovada a implantação do corredor cultural visando recuperar a imagem do centro histórico do Rio de Janeiro, com cerca de 1300 edificações, dos mais diversos estilos, tendo papel relevante para o reforço da identidade local.

Museu Nacional de Belas Artes
O Museu Nacional de Belas Artes está instalado, desde sua criação em 1937, no edifício da antiga Escola Nacional de Belas Artes. O edifício de estilo neoclássico é uma das marcas da abertura da então Avenida Central, hoje Rio Branco. Suas galerias abrigam obras de arte brasileira do século XVII ao século XX e obras de autores estrangeiros entre pinturas, esculturas e desenhos.

Biblioteca Nacional
Projeto de Francisco Marcelino de Souza Aguiar, foi inaugurado em 1910. Em estilo neoclássico, com imponente escadaria até o primeiro andar, é circundado de colunas corínticas. Seu acervo começou a ser reunido no século XVIII. Nele destacam-se dois exemplares da Bíblia de Mogúncia, impressa em 1462 pelos continuadores de Gutenberg, a edição dos Lusíadas de 1572, a coleção De Angelis e a coleção Teresa Cristina, doação de D. Pedro II.

Theatro Municipal
Projeto e construção de A. Guilbert e Francisco de Oliveira Passos. Sua inauguração deu-se em 14 de julho de 1909. As pinturas principais são de Eliseu Visconti - teto e pano de boca - e de Rodolfo Amoedo. Os mosaicos são de Henrique Bernardelli.

Esplanada do Castelo
O morro do Castelo, então chamado do Descanso ou de São Januário, foi escolhido para sediar a cidade por sua posição geográfica estratégica defensiva. A existência de lagoas e pântanos que ocupavam grande parte da região onde hoje se localiza o centro da cidade obrigou os fundadores a procurar o alto do morro do Castelo para reedificar a cidade. Entre os morros do Castelo e de Santo Antônio havia a Lagoa da Carioca. A topografia do morro do Castelo e entorno foi bastante modificada por aterros e desmontes para abrir espaço para as edificações.

Passeio Público
Na região hoje ocupada pelo Passeio Público ficava a Lagoa do Boqueirão, cujas águas se comunicavam com o mar. Foi o primeiro local de lazer construído com este objetivo específico no Rio de Janeiro, projetado por Mestre Valentim. A idéia era construir, segundo o estilo europeu, um monumental jardim público com luxo e entretenimento e que pudesse ser visto por quem chega na cidade pela baía de Guanabara. Representava também o domínio da civilização sobre a natureza. A obra iniciou-se em 1779, mas o parque só foi inaugurado em 1785.

Rua do Ouvidor
A rua do Ouvidor foi a mais importante da cidade nos séculos XVIII e XIX. Todos os grandes acontecimentos políticos, sociais e econômicos se convergiam para esta rua. Sendo citada várias vezes por autores importantes como Machado de Assis, José de Alencar e Olavo Bilac. Em 1746 o Ouvidor – magistrado do Governo Colonial Português - ganhou moradia na rua, dando seu nome a esta rua. A rua foi símbolo principal de toda a introdução da “modernidade” no país, sendo a primeira a ser calçada e iluminada. Foi a rua onde se instalou (imitando Paris) as primeiras confeitarias e os primeiros cafés e restaurantes. Era o principal ponto de encontro das elites – econômica, política e intelectual. O primeiro grande jornal do país – Jornal do Comércio – também se instalou na rua do Ouvidor em 1827. Até a Segunda Guerra era a rua mais elegante da moda no Rio – com influência francesa, e onde surgiu a primeira loja de departamentos – a Raunier. Depois da Guerra a rua do Ouvidor americanizou-se e os primeiros produtos de plástico e eletrônicos eram ali comercializados.

Praça Quinze de Novembro/Paço Imperial
Sítio histórico onde, em 1590, os padres Carmelitas instalaram o seu convento no então extenso areal à beira mar. Em 1700, o Governo do Rio de Janeiro adquire dos padres, casas térreas situadas no lugar para a instalação dos armazéns reais que, a partir de 1743 são reformados e ampliados, abrigando a Casa dos Governadores. Em 1808 com a chegada da família real portuguesa, a casa transforma-se em Paço Real e a praça que adquire o nome de Largo do Paço passa a testemunhar importantes momentos da história do Brasil: O Dia do Fico, as coroações de D. Pedro I e de D. Pedro II, a Abolição da Escravatura e, em 1889, o comunicado de deposição do imperador Pedro II e a extradição de sua família e auxiliares. O Largo do Paço abrigou de 1743 a 1889 o poder central. Passou a chamar-se Praça Quinze de Novembro após a Proclamação da República. Podem ser visitados na praça e seus arredores: o Paço Imperial; o Convento do Carmo (século XVI), atual Faculdade Cândido Mendes; o Chafariz da Pirâmide, obra de Mestre Valentim (1789), para receber água do rio Carioca através do Aqueduto da Carioca; Igreja de Nossa Senhora do Carmo, antiga catedral (1761); Igreja da Ordem Terceira do Monte do Carmo (século XVIII); Arco do Teles, último arco colonial da cidade, passagem sob o antigo palacete dos Teles de Menezes é o acesso da Praça Quinze para a Travessa do Comércio, onde se encontra um dos melhores conjuntos de casario assobradado do Rio; Igreja da Lapa dos Mercadores; o Palácio Tiradentes, atual Assembléia Legislativa; Igreja de São José (1808). No centro da Praça Quinze está o Monumento ao General Osório, obra de Rodolfo Bernardelli. O magnífico palácio, Paço Imperial, foi construído em 1730 pelo engenheiro José Fernandes Pinto a mando do governador Gomes Freire de Andrade. Em março de 1808 passou a ser residência de D. João VI que chegou no Rio fugindo das guerras napoleônicas. A maior intervenção na Praça XV foi a construção do elevado – Perimetral que liga o Aterro do Flamengo à Ponte Rio-Niterói, causando um enorme impacto negativo na paisagem e não resolvendo o problema crucial de circulação na cidade. A mais recente obra de engenharia foi o mergulhão, que alterou parcialmente a paisagem e acrescentou um problema ambiental de poluição do ar.

Casa França Brasil
Construído em 1820 para sediar a Alfândega do Rio de Janeiro, o edifício se caracteriza pela severidade da fachada neoclássica, amenizada pela graça da elevação alternada dos telhados, o que deixa transparecer o traço elegante, considerada a grande obra do arquiteto Granjean de Montigny.

Igreja de Nossa Senhora da Candelária
Construída em fins do século XVI, é atribuída a uma promessa feita a Nossa Senhora da Candelária, por Antônio Martins Palma, comandante de um navio, colhido por uma forte tempestade. Em 1775, um novo projeto do engenheiro-major Francisco Roscio deu a atual forma do templo, inaugurado em 1811. A cúpula, toda em pedra de lioz de Lisboa, representa a principal marca visual da igreja, construída em estilo neoclássico. O revestimento interior é todo de mármore com vitrais de cores vivas.

Bibliografia
Abreu, M. A A Evolução Urbana do Rio de Janeiro. IplanRio. Rio de Janeiro, 1987.
Carvalho, A. M. F. M. Mestre Valentim.. Cosac e Naify Edições. Rio de Janeiro, 1999
Cohen, A. Ouvidor, a rua do Rio. Editora Cohen, Rio de Janeiro, 2001.
Ferreira, F. P. M. a Imagem do Brasil Através dos Mapas, PUC-Rio, 1997
Macedo, J. M. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Garnier, Rio de Janeiro, 1991.
Nonato, J. A e Santos, N. M. (Org). Era uma vez o Morro do Castelo. IPHAN, Rio de Janeiro, 2000.
Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro. Paço Imperial, Rio de Janeiro, 1999.
Santos, P. Formação de cidades do Brasil Colonial. Editora Colóquio de Estudos Luso Brasileiros. Coimbra, 1968.