| Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 100 - Julho de 2004 |
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Vinte poemas de amor e uma canção desesperada Fernando
Py Pode-se afirmar, sem sombra de erro, que este livro de Pablo Neruda, do qual saiu há pouco uma nova edição brasileira bilíngüe (Vinte poemas de amor e uma canção desesperada, Rio de Janeiro: José Olympio, 22ª edição, 2004; tradução de Domingos Carvalho da Silva), não apenas é um sucesso absoluto de vendas como também teve sempre muito boa acolhida da crítica especializada. Pouco mais de adolescente ao publicá-lo (1924), Neruda conseguiu ir bastante fundo na exposição e análise do amor, mediante uma nova linguagem, bem realista para a época, unida a um conjunto de metáforas ousadas, quase sempre de influência surrealista. Mais ainda: a essência romântica do poeta reponta a cada instante, e essa mistura — romantismo visceral, realismo de situações e metáforas de fundo surreal — conferiu à linguagem dos poemas um todo bastante equilibrado, que rápida e prazerosamente foi aceito pelo público e pelos críticos de língua espanhola. Com toda a sua juventude, Neruda soube tirar partido da sonoridade ímpar dos vocábulos, estabelecendo um conjunto de versos de metro em geral longo, sem a preocupação de contar sílabas, versos que se baseiam sobretudo na fluência cantabile dos ritmos. Esse é um dos segredos não só dos poemas deste livro mas do verso nerudiano em geral. Aliás, os vinte textos formam um conjunto especial: dirigidos sempre por um homem a uma mulher — se observarmos com atenção, perceberemos não ser necessariamente sempre a mesma mulher —, tais poemas abordam o tema das relações entre os sexos de modo a abranger o maior número possível de situações, quase sempre conflituosas e melancólicas. O homem (o poeta) ora se dirige à mulher para enaltecer o relacionamento deles e mostrar feliz com o fato (poema 15, p. ex.), ora deplora a ausência da amada, após findo o romance (poema 20, talvez o melhor de todos: Puedo escribir los versos más tristes esta noche), e nos quais a melancolia e a tristeza ditam a linguagem e o enfoque dos versos. Porém, na maioria dos casos, o que há é o traço amargo da melancolia e da amargura que o poeta exprime diante da dificuldade de posse ou até da presença da mulher, às vezes quase uma desconhecida (como no poema 17). Assim, Neruda realiza um ciclo amatório eficiente: mistura a felicidade amorosa com a melancolia, a alegria da posse com a tristeza da ausência, a certeza do amor com o desespero do abandono. E é este último, afinal, que descreve a situação conclusiva desses poemas de amor. O poema 20 arremata esse périplo de amor, mostrando a tristeza do poeta por ter sido abandonado pela mulher amada. E a canção desesperada que conclui o livro nada mais é que a retomada do poema de amor final, e nela o poeta, mediante repetições quase sempre anafóricas, trabalha a sensação de desespero levada a um ponto angustiante, repisando a expressão-chave: todo en tí fué naufragio! Finalmente, observemos
que, sem fixar-se numa mulher definida, Neruda deixa aberto o caminho
para que se imagine quaisquer tipos femininos nas mulheres citadas, e
as canções amorosas do poeta adquirem um alcance mais geral,
universal, pois lidam eficientemente com o instinto do amor humano, aquele
que, segundo Dante, move il sole e l’altre stelle. |
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