| Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 100 - Julho de 2004 |
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O centenário de Pablo Neruda Gerson
Valle “Eu tenho tantas mortes de perfil/ que por isso não morro, sou incapaz de fazê-lo,/ me buscam e não me acham/ e saio com o que quero,/ com meu pobre destino/ de cavalo perdido/ nos porteiros solitários/ do sul do Sul da América” 1 . “Aproxima-se o Natal. Cada Natal que passa nos aproxima do ano 2000. Para essa alegria futura, para essa paz de amanhã, para essa justiça universal, para esses sinos do ano 2000, nós os poetas destes tempos de agora temos lutado e cantado.”2 Cito dois textos de Neruda (12/07/1904-23/09/1973), um em versos outro em prosa, para falar sobre ele. E a razão é que, por estes textos, sente-se: 1º) A convicção de força de uma vida que parecia interminável: 2º) Tão interminável que em 1972, com 68 anos de idade, e já com algumas incômodas doenças, não lhe parecia impossível chegar ao ano 2000, que ele sentia como se estivesse aproximando, e, mais importante que isto, o otimismo com que encarava o futuro, achando que sua luta social, literária, política, participavam de um caminho que traria, indubitavelmente, alegria, paz, justiça universal, nos 30 anos que o separavam do ano 2000!!! Por ele, nós já passamos, e, cada vez mais, nos parecem distantes os predicados que Neruda antevia para o nosso tempo. Mas, este seu otimismo, que não encontrou desânimo nem nas diversas perseguições e exílios causados pelos políticos e poderosos, ditadores e grupos de exploração capitalista que sempre dominaram a América latina, justifica-se quando se conhece a vida bastante tumultuada (e de uma riqueza de experiência rara) de Pablo Neruda e a generosidade tanto qualitativa quanto quantitativa de sua Poesia. Escrever, para ele, parecia até compulsivo, atendendo a uma necessidade interior de trabalho constante, sempre compondo obras novas e uma vontade de voar com as palavras além de todo possível limite imposto pela nossa compreensão! Sim, sua Poesia está carregada de metáforas a ponto de parecer levantar vôo, como se descrevesse a sensação de um pássaro, na grandeza de um condor de seus Andes... Por todos estes fatos, podíamos acreditar que ele chegaria ao ano 2000, ultrapassasse mesmo as nossas existências. Seu otimismo era de força, como um lutador gigante, cujo corpo está protegido de todas os murros do destino. Mal podemos, assim, crer que seu centenário não seja festejado em sua casa de Isla Negra, com ele recebendo, com um olhar para o seu amado mar em frente, outro para o seu interlocutor, para quem ele dá toda a atenção, descobrindo-lhe todas as potencialidades positivas, e um terceiro olhar para o papel, por onde ele não parava de escrever, em todas as circunstâncias, o vôo de sua aparente inesgotável saúde lírica! Seu percurso, na verdade, é bem representativo do tempo em que viveu. O seu otimismo participante de uma corrente política em que acreditava como possível solução às injustiças sociais e a forma de abordar a poesia, no “modernismo” das artes que então se distanciavam da figuração exclusivamente realista são bastante “século XX”, quando as ideologias se digladiaram com certa honestidade de propósitos, mesmo tendo disto resultado as maiores catástrofes para a Humanidade. E sua experiência de vida acompanhou, de perto, os mais destacados eventos de seu tempo. Nascido ao sul do Chile num pequeno vilarejo (Parral), sendo seu pai maquinista de trem, chegou a completar o 6º ano de Humanidades, tendo poemas publicados em periódicos desde os 13 anos. Com 19 anos, já em Santiago, tem seu primeiro livro de poemas publicado (“Crepusculario”), aparecendo no ano seguinte uma de suas mais célebres obras, “Veinte poemas de amor y uma canción desesperada”3 . Aos 23 anos, já reconhecido no Chile como grande poeta, é nomeado cônsul “ad honorem” em Rangum (na Birmânia), indo daí, logo em seguida, a ser cônsul em Colombo (Ceilão) e após, na Batávia (Java) e em Cingapura. Começam pelo Oriente, portanto, suas constantes viagens, que perdurarão por toda a vida, e que o farão conhecer e dominar costumes, línguas, compreendendo melhor o ser humano em suas diferentes culturas, o que lhe vai acrescentando, cada vez mais, um vivo Humanismo. Por esta época, também, casa-se pela primeira vez. Ao mesmo tempo em que conhece povos e países, lê toda novidade que lhe chega, e o surrealismo, que então aparece na França, lhe é acolhido como certo frescor de novidade, encontrando nele uma grande intensidade de poesia. Talvez esta influência, mesmo ele tendo passado por diversas fases posteriormente, tenha marcado definitivamente seu gosto pela linguagem aliciante das metáforas. Em 1933, quando cônsul em Buenos Aires, conhece García Lorca, que aí esteve de passagem, tornando-se de imediato seu amigo e admirador (admiração recíproca, pois Lorca implorava, quando Neruda começava a ler-lhe seus versos, que parasse, pois senão ele iria copiar tudo, perdendo sua própria originalidade!!!). Lorca é assassinado em 1936, quando Neruda é cônsul em Madri. Escreve “España em el corazón” (que, em 1938, proibido no Chile, sairia em tradução francesa com prefácio de seu amigo Louis Aragon) francamente favorável aos republicanos, em plena Guerra Civil, para quem procura abrigo e proteção como diplomata, o que lhe vale o afastamento de suas funções. Da campanha republicana espanhola, Neruda participará, após, da campanha antinazista durante a 2a guerra mundial. Ganha diversos prêmios (que iriam culminar com o “Nobel”, dois anos antes de sua morte), inclusive o de doutor “honoris causa” de várias universidades (a começar por Oxford). Em 1946 é eleito senador pelo Partido Comunista chileno. Em 48, seu mandato, após um violento discurso no Senado, é cassado e contra ele é expedido mandado de prisão. Foge pelo sul do Chile, indo, em meio ao frio e condições inóspitas, montado em cavalo, atravessar as cordilheiras chilenas e os pampas argentinos, e de Montevidéu, com o passaporte que lhe emprestou Miguel Angel Asturias (escritor guatemalteco, diplomata que então servia em Buenos Aires), vai de avião para Paris, onde o amigo Pablo Picasso o espera no aeroporto. Passa alguns anos viajando, inclusive no México com Paul Éluard, e sobretudo pelo leste europeu (esteve com o amigo Jorge Amado na URSS. Chegou mesmo a escrever que a família de nosso escritor era a sua “família brasileira”, devido, talvez, à hospitalidade recebida numa visita à Bahia. Aliás, no Brasil, também, o poeta Vinícius de Moraes chegou a viajar com ele para lhe mostrar Ouro Preto). Morou uma temporada na Itália, na ilha de Capri. Não cabe aqui uma biografia mais detalhada de Neruda, lembrando, por estes dados, apenas o quanto sua vida plena (e até aventureira) se equivale à riqueza de sua Poesia, e o quanto tudo isto tem a ver com as lutas, esperanças e renovações estéticas de seu século XX. Somente para concluir tais dados, em 1968 o Partido Comunista chileno lançou a sua candidatura para Presidente da República. Ele renuncia em favor do homem que então mais admira, Salvador Allende, e parte junto com ele para a campanha pelo interior do país. Allende vitorioso, Neruda é feito embaixador em Paris. Em 11 de setembro de 1973 Allende foi assassinado no Palácio de la Moneda. Praticamente uma semana depois, Neruda morre. Com isto, o otimismo de mudança por um futuro socialmente mais justo, uma Humanidade mais feliz, teriam também perecido? Um dado que me parece fundamental é o de que Pablo Neruda foi comunista porque em seu tempo esta era a posição que lhe parecia melhor colocar condições mais justas para a Humanidade. Chegou a fazer vista grossa, ao que parece, à ditadura stalinista, com a esperança da construção de uma outra sociedade, passados os impactos e desconfortos da guerra fria. Não existe no caráter do poeta nada que ateste as restrições e crueldades do stalinismo. Ao contrário, Neruda aceitava todos os tipos de pessoas, tentando compreender os contrários, e juntar personalidades, dados existenciais, conhecimentos e objetos, tudo ele colecionava como que se quisesse adicionar sempre, aproximar para ter junto de si as possíveis metáforas de seus devaneios poéticos prazerosos. Quem viaja pelo Chile sempre ouve a explicação de algum guia de que há três museus Neruda que eram suas três casas, representando suas 3 mulheres, e, às vezes dizem, em tom “confidente”, que talvez haja uma 4a casa, dando a entender que havia uma 4a mulher... Sem dúvida, a sensibilidade do poeta o aproximava bastante do mundo feminino e de seus contactos. Mas, na verdade dedicou-se bastante a sua última mulher, Matilde Urrutia, para quem escreveu os “100 Sonetos de amor”4 . As 3 casas ficavam em Santiago, Valparaíso e na Isla Negra. São museus não somente por terem sido habitações de Neruda, mas pelas coleções por ele deixadas. A começar pela coleção de caracóis (que doou para a Universidade chilena). Todas as coisas relativas ao mar, aliás, lhe interessavam sempre. As mais pitorescas talvez sejam as imensas carrancas de navio (em formas femininas a maioria) que enfeitam alguns aposentos da casa de Isla Negra. Mas há coleções de copos, garrafas, e até de pesos que fixam as rodinhas de pianos (!!!). Lembrando seu pai, no jardim da Isla Negra, há uma locomotiva! O colecionador indica, ao que parece, o desejo do poeta (verbalmente, também, bastante generoso, acumulativo...) de trazer o mundo para dentro de casa, não havendo limites para os objetos, os sentimentos, as coisas de que gostava, desejando acumulá-las, conviver com todas. E assim trazia de várias partes do mundo as recordações que construíam seu lar chileno, trazia o mundo para seu Chile, para sua América! E este, talvez, o ponto mais essencial de seu caráter original e grandioso. Com seus estudos e viagens queria obter uma compreensão de seu continente, de suas peculiaridades, potencialidades, adicionando-lhe as marcas da natureza e da civilização de toda parte, seus gostos e curiosidades. Pablo Neruda teve como obra maior o seu “Canto Geral”, que passou anos compondo5 . É a única epopéia americana do século XX, e é, literalmente, a Epopéia Americana (das 3 Américas, havendo mesmo poema exaltando Lincoln), e nela ele canta, tal como Euclides, em “Os Sertões”, a terra, o homem e a luta, mas sendo a terra (e o oceano) abordada com a poesia mesclada (desde as alturas de Macchu Picchu até a extensão do Amazonas) a sua História de conquista e resistência, o homem sendo colocado como conquistadores, libertadores (e aí destaca, do Brasil, o poeta Castro Alves, a quem diz: “Cantaste como se deve cantar”, e Luiz Carlos Prestes, que é o símbolo da esperança por vários poemas) e os oligarcas... A luta, evidentemente, é por uma América renovada, onde o povo não seja mais massacrado, mas de onde surja o verdadeiro perfil miscigenado numa sociedade justa. No “Canto Geral” Neruda prepara a conscientização americana por sua singularidade, para partilhar de um mundo globalizado, sim, mas onde o socialismo garantiria a igualdade de benefícios com as diferenças regionais. E por esta condição ele lutava com toda a sua poderosa veia poética, carregada dos mares e montanhas avizinhando-se nas estreitas terras do Chile. Branco, índio, negro, chileno, sul-americano, americano, universal!!! NOTAS 1 Neruda, Pablo – Últimos poemas (O mar
e os sinos), trad. Luiz de Miranda, L&PM, 1983
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