Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 100 - Julho de 2004


ENTREVISTA / Feizi Milani

"Paz não significa ausência de ação, monotonia, passividade. Pelo contrário, é algo dinâmico, em contínua construção, que exige permanente diálogo."

Elizangela Dezincourt
Jornalista formada pela Universidade Federal do Pará, com curso de MBA em Gestão de Pessoas. Especialista em assessoria de imprensa, editora de revistas especializadas e consultora em comunicação. É gerente de atendimento da ED Comunicação, empresa sediada em Brasília. (www.edcomunicacao.com.br)

O médico hebeatra e doutor em Saúde Coletiva, Feizi Milani, recentemente morando em Brasília, lançou o livro “Tá combinado. Construindo um pacto de convivência na escola”. Feizi viaja pelo Brasil fazendo palestras sobre a cultura de paz e como é possível melhorar a auto-estima das pessoas. O médico é membro da ong Comunidade Bahá´í. Acompanhe a entrevista.

Poiésis - O que é a Cultura da Paz?
Feizi Milani
– É um conjunto de transformações necessárias e indispensáveis para que a paz seja o princípio governante de todas as relações humanas e sociais. A paz não significa ausência de ação, monotonia, passividade. Pelo contrário, é algo dinâmico, em contínua construção, que exige permanente diálogo. Essa é uma caminhada que só acontece pela vontade e pela ação do ser humano. Promover a cultura da paz é, em si, o processo, o aprendizado e a meta.

Poiésis - Como disseminar essa cultura entre as pessoas?
Feizi Milani
- O grande desafio é que essas mudanças não dependem apenas da ação dos governos, nem somente de uma mudança de postura individual. Elas precisam ocorrer em vários níveis: indivíduo, família, comunidade, organizações privadas e públicas e Estados nacionais.

Poiésis - O que pode ser feito para reduzir a violência?
Feizi Milani
- Enfatiza-se muito a repressão à violência, mas esse enfoque é absolutamente ineficiente. O paradigma da Cultura de Paz permite analisar a questão da violência por um prisma muito mais amplo. Um exemplo prático do que precisa ser feito é a Educação para a Paz, um campo de experiências sociais e estratégias pedagógicas que podem ser aplicadas em famílias, escolas, empresas e comunidades. É importante pensar a cultura da paz nos níveis micro e macro. O primeiro refere-se ao campo de atuação e relações do indivíduo: sua família, bairro, profissão e amizades. As possibilidades de ação nesse nível são infinitas - toda pessoa pode fazer algo simples como sua parcela de contribuição. A paz precisa ser levada a sério, saindo das opiniões do senso comum e buscando-se o conhecimento e a competência.

Poiésis - Como implantar Cultura de Paz onde reina a violência?
Feizi Milani
- Toda injustiça é uma forma de violência e um empecilho à paz. As pessoas das classes pobres e marginalizadas são duplamente vitimizadas: tanto pelas modalidades de violência que ocorrem em todos os segmentos sociais quanto pelas expressões da violência estrutural (fome, discriminação, dificuldade de acesso à educação, saúde e assistência social, falta de perspectivas) que as atingem em cheio. Feitas essas ressalvas é preciso combater o crime organizado com todos os recursos que o Estado de Direito permite.

Poiésis - Como começou seu interesse pelo assunto paz?
Feizi Milani
- Meu interesse vem desde a infância. Sempre convivi com a diversidade, pois cresci com pessoas de várias nacionalidades e religiões, sem perceber qualquer distinção por parte dos meus pais. A minha religião, Bahá’í (pronuncia-se barrai), também contribui para isso. É a religião mais recente, com 150 anos. Consideramos o islamismo, budismo, cristianismo, como passos para se chegar até Deus. Ou seja, não são religiões separadas. Para nós da Bahá’í, o estabelecimento da unidade mundial é uma meta a ser construída. Desde cedo, aprendi que quando se convive com as pessoas, as barreiras somem.

Poiésis - Há alguma forma de se cultivar a paz nas pessoas?
Feizi Milani
- Os cientistas são unânimes em dizer que a violência não é inerente ao ser humano. Não nascemos violentos: aprendemos a ser. Então, podemos aprender a ser pacíficos. A educação tem papel fundamental nesse processo, já que a gente vive se educando e educando os outros. Desde a fecundação, os pais podem semear a paz no feto, tratando-o com amor, carinho, pensamentos positivos. Ao contrário, se um bebê não é amado, já nasce com maior predisposição para a violência. Duas coisas são essenciais para o aprendizado da paz: o amor incondicional dos pais e a disciplina, que é o amor visando a educação, a formação do caráter.

Poiésis – Do que trata o livro Tá combinado!?
Feizi Milani
– O livro oferece uma estratégia pedagógica e um roteiro de trabalho para ajudar o professor a aprimorar a gestão da sala de aula e a desenvolver, em si mesmo e nos estudantes, atitudes que vão melhorar o ambiente e as relações interpessoais. A sinergia dessas melhorias contribuirá para despertar o desejo de aprender. O livro é bem didático e o professor sozinho pode seguir a metodologia e aplicá-la em sala de aula. Os conceitos do livro podem ser aplicados a qualquer série do ensino fundamental ao médio.

Poiésis – Como é colocado o conteúdo do livro?
Feizi Milani
– Do ponto de vista pedagógico, o conteúdo e a forma de trabalho apresentados se inserem nos conteúdos atitudinais, que visam o desenvolvimento de valores, atitudes e norma por parte dos educandos. Em relação aos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), a construção de um pacto de Convivência tal como proponho, é uma estratégia para se trabalhar, de forma transversal, a ética e a cidadania.

Poiésis – O livro é dividido em cinco sessões?
Feizi Milani
– Sim. Na primeira, apresentarei a visão de sala de aula que se almeja alcançar, com a construção do Combinado e discutirei os benefícios desse processo. Na segunda são desenvolvidos os fundamentos conceituais e analisadas as posturas pedagógicas que lhes possibilitarão construir, juntamente com os estudantes, um Pacto de Convivência. A seção três discute os principais aspectos operacionais a serem considerados pelas escolas e educadores que vão implementar Combinados. As etapas de implementação são descritas e enriquecidas com sugestões práticas na quarta seção. Por fim, a seção cinco traz relatos de experiência elaborados por educadores que já desenvolvem processos similares aos aqui propostos, em variados contextos e de várias formas.