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ENTREVISTA
/ Feizi Milani
"Paz
não significa ausência de ação, monotonia,
passividade. Pelo contrário, é algo dinâmico, em contínua
construção, que exige permanente diálogo."
Elizangela
Dezincourt
Jornalista formada pela Universidade Federal do Pará,
com curso de MBA em Gestão de Pessoas. Especialista em assessoria
de imprensa, editora de revistas especializadas e consultora em comunicação.
É gerente de atendimento da ED Comunicação, empresa
sediada em Brasília. (www.edcomunicacao.com.br)
O médico hebeatra
e doutor em Saúde Coletiva, Feizi Milani, recentemente morando
em Brasília, lançou o livro “Tá combinado.
Construindo um pacto de convivência na escola”. Feizi viaja
pelo Brasil fazendo palestras sobre a cultura de paz e como é possível
melhorar a auto-estima das pessoas. O médico é membro da
ong Comunidade Bahá´í. Acompanhe a entrevista.
Poiésis
- O que é a Cultura da Paz?
Feizi Milani – É um conjunto de transformações
necessárias e indispensáveis para que a paz seja o princípio
governante de todas as relações humanas e sociais. A paz
não significa ausência de ação, monotonia,
passividade. Pelo contrário, é algo dinâmico, em contínua
construção, que exige permanente diálogo. Essa é
uma caminhada que só acontece pela vontade e pela ação
do ser humano. Promover a cultura da paz é, em si, o processo,
o aprendizado e a meta.
Poiésis
- Como disseminar essa cultura entre as pessoas?
Feizi Milani - O grande desafio é que essas mudanças
não dependem apenas da ação dos governos, nem somente
de uma mudança de postura individual. Elas precisam ocorrer em
vários níveis: indivíduo, família, comunidade,
organizações privadas e públicas e Estados nacionais.
Poiésis
- O que pode ser feito para reduzir a violência?
Feizi Milani - Enfatiza-se muito a repressão à
violência, mas esse enfoque é absolutamente ineficiente.
O paradigma da Cultura de Paz permite analisar a questão da violência
por um prisma muito mais amplo. Um exemplo prático do que precisa
ser feito é a Educação para a Paz, um campo de experiências
sociais e estratégias pedagógicas que podem ser aplicadas
em famílias, escolas, empresas e comunidades. É importante
pensar a cultura da paz nos níveis micro e macro. O primeiro refere-se
ao campo de atuação e relações do indivíduo:
sua família, bairro, profissão e amizades. As possibilidades
de ação nesse nível são infinitas - toda pessoa
pode fazer algo simples como sua parcela de contribuição.
A paz precisa ser levada a sério, saindo das opiniões do
senso comum e buscando-se o conhecimento e a competência.
Poiésis
- Como implantar Cultura de Paz onde reina a violência?
Feizi Milani - Toda injustiça é uma forma de violência
e um empecilho à paz. As pessoas das classes pobres e marginalizadas
são duplamente vitimizadas: tanto pelas modalidades de violência
que ocorrem em todos os segmentos sociais quanto pelas expressões
da violência estrutural (fome, discriminação, dificuldade
de acesso à educação, saúde e assistência
social, falta de perspectivas) que as atingem em cheio. Feitas essas ressalvas
é preciso combater o crime organizado com todos os recursos que
o Estado de Direito permite.
Poiésis
- Como começou seu interesse pelo assunto paz?
Feizi Milani - Meu interesse vem desde a infância. Sempre
convivi com a diversidade, pois cresci com pessoas de várias nacionalidades
e religiões, sem perceber qualquer distinção por
parte dos meus pais. A minha religião, Bahá’í
(pronuncia-se barrai), também contribui para isso. É a religião
mais recente, com 150 anos. Consideramos o islamismo, budismo, cristianismo,
como passos para se chegar até Deus. Ou seja, não são
religiões separadas. Para nós da Bahá’í,
o estabelecimento da unidade mundial é uma meta a ser construída.
Desde cedo, aprendi que quando se convive com as pessoas, as barreiras
somem.
Poiésis
- Há alguma forma de se cultivar a paz nas pessoas?
Feizi Milani - Os cientistas são unânimes em dizer
que a violência não é inerente ao ser humano. Não
nascemos violentos: aprendemos a ser. Então, podemos aprender a
ser pacíficos. A educação tem papel fundamental nesse
processo, já que a gente vive se educando e educando os outros.
Desde a fecundação, os pais podem semear a paz no feto,
tratando-o com amor, carinho, pensamentos positivos. Ao contrário,
se um bebê não é amado, já nasce com maior
predisposição para a violência. Duas coisas são
essenciais para o aprendizado da paz: o amor incondicional dos pais e
a disciplina, que é o amor visando a educação, a
formação do caráter.
Poiésis
– Do que trata o livro Tá combinado!?
Feizi Milani – O livro oferece uma estratégia pedagógica
e um roteiro de trabalho para ajudar o professor a aprimorar a gestão
da sala de aula e a desenvolver, em si mesmo e nos estudantes, atitudes
que vão melhorar o ambiente e as relações interpessoais.
A sinergia dessas melhorias contribuirá para despertar o desejo
de aprender. O livro é bem didático e o professor sozinho
pode seguir a metodologia e aplicá-la em sala de aula. Os conceitos
do livro podem ser aplicados a qualquer série do ensino fundamental
ao médio.
Poiésis – Como é colocado o conteúdo
do livro?
Feizi Milani – Do ponto de vista pedagógico, o conteúdo
e a forma de trabalho apresentados se inserem nos conteúdos atitudinais,
que visam o desenvolvimento de valores, atitudes e norma por parte dos
educandos. Em relação aos Parâmetros Curriculares
Nacionais (PCN), a construção de um pacto de Convivência
tal como proponho, é uma estratégia para se trabalhar, de
forma transversal, a ética e a cidadania.
Poiésis
– O livro é dividido em cinco sessões?
Feizi Milani – Sim. Na primeira, apresentarei a visão
de sala de aula que se almeja alcançar, com a construção
do Combinado e discutirei os benefícios desse processo. Na segunda
são desenvolvidos os fundamentos conceituais e analisadas as posturas
pedagógicas que lhes possibilitarão construir, juntamente
com os estudantes, um Pacto de Convivência. A seção
três discute os principais aspectos operacionais a serem considerados
pelas escolas e educadores que vão implementar Combinados. As etapas
de implementação são descritas e enriquecidas com
sugestões práticas na quarta seção. Por fim,
a seção cinco traz relatos de experiência elaborados
por educadores que já desenvolvem processos similares aos aqui
propostos, em variados contextos e de várias formas.
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