Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 100 - Julho de 2004


Os anos JK – aos nossos dias

Marcelo J. Fernandes
Mestre em Literatura Brasileira pela UFRJ, Professor de Língua Portuguesa da Faculdade de Comunicação da Universidade Estácio de Sá – Petrópolis e Diretor do Colégio Santa Teresa D’Ávila. (mjfernandes@ig.com.br)

Os anos JK – os anos dourados – trouxeram com seu espírito desenvolvimen-tista, entre tantas outras contribuições, a bossa nova, que não se constituiu, propriamente, de um gênero novo, mas de uma maneira de tocar o samba através da multiplicação de síncopas, acompanhada de uma descontinuidade entre o acento rítmico da melodia e o acompanhamento (harmonia). Acrescenta-se ainda que, embora inovadora, esta forma de ler o samba, “quebrada”, “dividida”, já se observava em fins dos anos 40 nas interpretações intimistas de Mário Reis, e, na década seguinte, na dissonância das canções de Johnny Alf. Na virada dos anos 60, porém, a bossa nova irrompeu mundialmente como estética musical. (nota: como curiosidade, o termo “bossa nova” apareceu na MPB, pela primeira vez, nos anos 30, numa canção de Noel Rosa).
Esse movimento, nascido entre jovens músicos cariocas influenciados também pelo be bop do jazz norte-americano, pouco acrescenta a este ensaio, devido à sua temática centrada, basicamente, nos elementos praianos sol – mar – praia – céu – sol – flor – amor (à exceção, talvez, das doídas composições de Dolores Duran e Maysa Mattarazzo, entretanto fora do escopo de nossa análise, por se tratar de autoras).
Após a bossa nova, ressalta José Ramos Tinhorão em Pequena história da música popular (São Paulo, Art Editora, 1991):

“(...) como a realidade da política desenvolvimentista de JK se revelava incapaz de absorver no seu quadro econômico as primeiras gerações de profissionais universitários, a falta de perspectiva de ascensão socioeconômica levou os estudantes a uma atitude de participação crítica da realidade, o que os conduzia inapelavelmente ao campo da política”.

Data dessa época a criação dos CPCs – Centro Popular de Cultura - da UNE, que deflagrou uma conscientização político-ideológica, culminando com a revelação de grandes valores, através de grandes eventos como o antológico show “Opinião”; das peças “Liberdade, liberdade” e “Arena conta Zumbi”, e dos festivais universitários. Oriundos desses movimentos, Chico Buarque de Hollanda, Caetano Velloso e Gilberto Gil surgem em meados da década de 60, e tornam-se líderes de uma geração.
Com sólidas trajetórias de resistência política e protesto à instauração do regime de exceção pós-64 que lhes custou o exílio na Europa, Chico, Caetano e Gil retornaram ao país somente no início da década seguinte, com carreiras já consagradas.
O “boom” da revolução sexual e a crescente participação da mulher no mercado de trabalho de certa maneira trazem à cena, de forma significativa, as questões femininas, contribuindo vigorosamente para uma retomada do eu-lírico sob esse aspecto. Chico Buarque talvez tenha sido o compositor que mais contribuiu e melhor traduziu este sentimento feminino de maneira abrangente, sensível e verossímil, ao longo de suas 332 canções. Atrás da porta, primeira obra da frutífera parceria com o maestro Francis Hime, é o exemplo mais significativo da permanência do lirismo trovadoresco na MPB, aqui, pela “coita” profunda, um “cantar d’amor”, com o eu-lírico feminino, deslocado:

quando olhaste bem nos
[olhos meus
e o teu olhar era de adeus
juro que não acreditei
eu te estranhei, me debrucei
sobre o teu corpo e duvidei
e me arrastei, e te arranhei
e me agarrei nos teus cabelos,
no teu peito, teu pijama,
nos teus pés, ao pé da cama
sem carinho, sem coberta
no tapete, atrás da porta,
reclamei baixinho.
dei pra maldizei o nosso lar
pra sujar teu nome, te humilhar
e me vingar a qualquer preço
te adorando pelo avesso
pra mostrar que ‘inda sou tua
até provar que ‘inda sou tua.

Em Olhos nos olhos, sucesso de Maria Bethânia em 1974, Chico Buarque foca o eu-lírico de uma mulher que supera a separação do amado, como uma leitura não feminina, mas, sobretudo, feminista:

quando você me deixou, meu bem
me disse pra eu ser feliz
[e passar bem
quis morrer de ciúme,
[quase enlouqueci
mas, depois, como era de costume,
[obedeci.
quando você me quiser rever,
já vai me encontrar refeita,
[pode crer,
olhos nos olhos quero ver o que
[você faz
ao sentir que sem você eu passo
[bem demais.
e que venho até remoçando, me
[pego cantando,
sem mais, nem porquê.
e tantas águas rolaram,
tantos homens me amaram
bem mais e melhor que você.
quando, talvez, precisar de mim,
cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim
olhos nos olhos, quero ver
[o que você diz
quero ver como suporta me ver
[tão feliz.

Os anos 70 – os anos de chumbo, de sua metade em diante – consagraram a obra de outro grande compositor popular, também oriundo dos festivais (FIC- 1970, da TV Globo): Ivan Lins. Apesar do início ufanista em tempos amargos (O amor é meu país), consolida a carreira ao associar-se ao letrista Vítor Martins, cantando a libertação e o amadurecimento definitivos da mulher a partir de 1980:

começar de novo e contar comigo
vai valer a pena ter amanhecido
ter me rebelado, ter me debatido
ter me machucado,
ter sobrevivido
ter virado a mesa,
ter me conhecido
ter virado o barco,
ter me socorrido

começar de novo e contar comigo
vai valer a pena ter amanhecido
sem as tuas garras
sempre tão seguras
sem o teu fantasma,
sem tua moldura
sem tuas escoras,
sem o teu domínio
sem tuas esporas,
sem o teu fascínio

começar de novo e contar comigo
vai valer a pena
já ter te esquecido,
começar de novo...

Observemos os dois momentos da canção - gravada por Simone, tornou-se célebre tema de uma marco da tv brasileira, o seriado Malu Mulher, e um hino feminista – onde a primeira estrofe, rica em particípios, alude a um contexto anterior e a segunda estrofe, plena de anáforas expressivas, expõe a firmeza da nova condição que o audaz eu-lírico feminino assume.

Em Bilhete, novamente a dupla Lins/Martins constitui um eu-lírico decidido, firme, inquebrantável. A iniciativa da separação é da mulher, transparecendo uma resolução irrevogável, carregada na dura metáfora “fiz um tipo de aborto” e na notável gradação dos elementos que caracterizam a dissolução: prato – quarto – sala – mala – corredor – corpo – entranhas – aborto (fim) – morto.

quebrei o teu prato,
tranquei o meu quarto,
bebi teu licor
arrumei a sala,
já fiz tua mala,
pus no corredor.
eu limpei minha vida,
te tirei do meu corpo,
te tirei das entranhas;
fiz um tipo de aborto
e, por fim, nosso caso acabou,
está morto.
jogue a cópia da chave
por debaixo da porta
que é pra não ter motivo
de pensar numa volta,
fique junto dos seus, boa sorte,
adeus.

Outros autores poderiam (e deveriam) ter sido citados neste já extenso ensaio, como Caetano Velloso, Mílton Nascimento/Fernando Brant, João Bosco/Aldir Blanc e o prematuramente desaparecido Luiz Gonzaga Jr., cuja obra com eu-lírico feminino é de uma sensibilidade extraordinária. Entretanto, para que pudéssemos mapear a trajetória do legado trovadoresco das cantigas na MPB contemporânea, fez-se necessário este recorte, delineando a voz da primeira pessoa feminina nas composições, desde o seu início discreto (justificando apenas um deslocamento do sentimento masculino) até a “incorporação” da alma feminina em Chico Buarque e em Ivan Lins/Vítor Martins.

Conclusões

É evidente que a cultura trovadoresca sofreu contínuas modificações, adaptando-se aos diferentes condicionamentos sociais, com o correr dos séculos. Da mesma forma como o patriarcalismo se modificou, mas continua vivo, também a grande propriedade não é mais feudo, mas existe; o misticismo religioso, apesar de não mais se falar em teocentrismo, continua norteando muitas vidas, ora em pleno apogeu de febres esotéricas de virada de milênio; a servidão, a vassalagem social e a amorosa estão aí, explícitas, de roupagem nova. Neste contexto, a cultura trovadoresca retoma parte de sua essência no início do século XX através do rádio, que forja, inicialmente, uma audiência esmagadoramente feminina, atendendo, assim, a uma demanda comercial.
Posteriormente, a natural inserção e a afirmação da mulher na sociedade impuseram um conseqüente estabelecimento do eu-lírico “assumido” pelo compositor popular.
É relevante observarmos, por fim, que, paralelamente a essas produções, notáveis autoras obtiveram seu espaço, tais como Dolores Duran, Maysa, Sueli Costa, Joyce, Fátima Guedes, Angela Rô Rô, Marina Lima, etc. Mas isso já é assunto para outro trabalho...

Nota do Editor: Os ensaios anteriores de Marcelo J. Fernandes (“As neo-cantigas de amigo: o legado trovadoresco na MPB” e “A era do rádio”, publicados respectivamente nas edições 98 e 99, estão disponíveis em nosso site www.netterra.com.br/poiesis.)