| Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 100 - Julho de 2004 |
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Os anos JK – aos nossos dias Marcelo
J. Fernandes Os anos JK – os anos dourados – trouxeram
com seu espírito desenvolvimen-tista, entre tantas outras contribuições,
a bossa nova, que não se constituiu, propriamente, de um gênero
novo, mas de uma maneira de tocar o samba através da multiplicação
de síncopas, acompanhada de uma descontinuidade entre o acento
rítmico da melodia e o acompanhamento (harmonia). Acrescenta-se
ainda que, embora inovadora, esta forma de ler o samba, “quebrada”,
“dividida”, já se observava em fins dos anos 40 nas
interpretações intimistas de Mário Reis, e, na década
seguinte, na dissonância das canções de Johnny Alf.
Na virada dos anos 60, porém, a bossa nova irrompeu mundialmente
como estética musical. (nota: como curiosidade, o termo “bossa
nova” apareceu na MPB, pela primeira vez, nos anos 30, numa canção
de Noel Rosa). “(...) como a realidade da política desenvolvimentista de JK se revelava incapaz de absorver no seu quadro econômico as primeiras gerações de profissionais universitários, a falta de perspectiva de ascensão socioeconômica levou os estudantes a uma atitude de participação crítica da realidade, o que os conduzia inapelavelmente ao campo da política”. Data dessa época a criação dos CPCs
– Centro Popular de Cultura - da UNE, que deflagrou uma conscientização
político-ideológica, culminando com a revelação
de grandes valores, através de grandes eventos como o antológico
show “Opinião”; das peças “Liberdade,
liberdade” e “Arena conta Zumbi”, e dos festivais universitários.
Oriundos desses movimentos, Chico Buarque de Hollanda, Caetano Velloso
e Gilberto Gil surgem em meados da década de 60, e tornam-se líderes
de uma geração. quando olhaste bem nos Em Olhos nos olhos, sucesso de Maria Bethânia em 1974, Chico Buarque foca o eu-lírico de uma mulher que supera a separação do amado, como uma leitura não feminina, mas, sobretudo, feminista: quando você me deixou, meu bem Os anos 70 – os anos de chumbo, de sua metade em diante – consagraram a obra de outro grande compositor popular, também oriundo dos festivais (FIC- 1970, da TV Globo): Ivan Lins. Apesar do início ufanista em tempos amargos (O amor é meu país), consolida a carreira ao associar-se ao letrista Vítor Martins, cantando a libertação e o amadurecimento definitivos da mulher a partir de 1980: começar de novo e contar comigo começar de novo e contar comigo começar de novo e contar comigo Observemos os dois momentos da canção - gravada por Simone, tornou-se célebre tema de uma marco da tv brasileira, o seriado Malu Mulher, e um hino feminista – onde a primeira estrofe, rica em particípios, alude a um contexto anterior e a segunda estrofe, plena de anáforas expressivas, expõe a firmeza da nova condição que o audaz eu-lírico feminino assume. Em Bilhete, novamente a dupla Lins/Martins constitui um eu-lírico decidido, firme, inquebrantável. A iniciativa da separação é da mulher, transparecendo uma resolução irrevogável, carregada na dura metáfora “fiz um tipo de aborto” e na notável gradação dos elementos que caracterizam a dissolução: prato – quarto – sala – mala – corredor – corpo – entranhas – aborto (fim) – morto. quebrei o teu prato, Outros autores poderiam (e deveriam) ter sido citados neste já extenso ensaio, como Caetano Velloso, Mílton Nascimento/Fernando Brant, João Bosco/Aldir Blanc e o prematuramente desaparecido Luiz Gonzaga Jr., cuja obra com eu-lírico feminino é de uma sensibilidade extraordinária. Entretanto, para que pudéssemos mapear a trajetória do legado trovadoresco das cantigas na MPB contemporânea, fez-se necessário este recorte, delineando a voz da primeira pessoa feminina nas composições, desde o seu início discreto (justificando apenas um deslocamento do sentimento masculino) até a “incorporação” da alma feminina em Chico Buarque e em Ivan Lins/Vítor Martins. Conclusões É evidente que a cultura trovadoresca sofreu contínuas
modificações, adaptando-se aos diferentes condicionamentos
sociais, com o correr dos séculos. Da mesma forma como o patriarcalismo
se modificou, mas continua vivo, também a grande propriedade não
é mais feudo, mas existe; o misticismo religioso, apesar de não
mais se falar em teocentrismo, continua norteando muitas vidas, ora em
pleno apogeu de febres esotéricas de virada de milênio; a
servidão, a vassalagem social e a amorosa estão aí,
explícitas, de roupagem nova. Neste contexto, a cultura trovadoresca
retoma parte de sua essência no início do século XX
através do rádio, que forja, inicialmente, uma audiência
esmagadoramente feminina, atendendo, assim, a uma demanda comercial. Nota do Editor: Os ensaios anteriores de Marcelo J. Fernandes (“As neo-cantigas de amigo: o legado trovadoresco na MPB” e “A era do rádio”, publicados respectivamente nas edições 98 e 99, estão disponíveis em nosso site www.netterra.com.br/poiesis.)
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