Relato de R.E.C.M., vítima de uma quadrilha de estelionatários que está agindo no centro de Bacaxá. Ela entregou mil reais ao bando formado por um idoso, o jovem bem apessoado e uma mulher loira e grávida. O fato ocorreu no dia 19/09/2007 e foi registrado na Delegacia de Polícia Civil de Saquarema.
Às 10:30hs aproximadamente, na manhã do dia 19 de setembro, fui abordada na rua que fica quase em frente ao Atacadão Oliveira por um senhor muito humilde que aparentava uns 50 anos de idade.
Ele chegou perguntando sobre uma confecção que dizia ficar ali por perto, mostrou-me um papelzinho escrito manualmente, onde falava o nome do suposto proprietário da confecção: Jorge Mansur e algumas referências de onde o mesmo morava. Eu falei que não conhecia ninguém ali com esse nome.
O “senhor humilde” disse que por não saber ler e nem escrever estava com vergonha de perguntar às pessoas, pois as mesmas sempre pensavam que ele ia pedir dinheiro a elas.
Ele me contou que morava num sítio bem longe, indo para Rio das Ostras, e que comprara com o Jorge Mansur uns cortes de pano e que havia pago pelas suas compras o valor de 100 reais, com duas notas de 50, e como o vendedor não tinha troco deu um papel a ele, dizendo que o mesmo era de loteria federal e que era para guardá-lo. Só que recentemente o “senhor humilde” foi procurado pelo vendedor dizendo que ele havia ganho 10 mil reais com aquele papelzinho e mais uma máquina de costura e uns cortes de pano, mas como o dinheiro era muito (10 mil reais), o vendedor iria abrir uma poupança conjunta com a mãe do “senhor humilde”, pois a idade da mãe dele (57 anos) não a permitia abrir conta sozinha. Eu já comecei ali a ter dó do moço, que iria ser trapaceado pelo vendedor de panos.
Ele aparentava o tempo todo estar com medo das pessoas, dizia estar com medo do tal Jorge Mansur, que pedira ao mesmo que não contasse a ninguém sobre o papelzinho, que até então não me mostrara qual era. Queria sempre estar em lugar que ninguém o visse, e teve uma hora que ele falou: olha aquela dona na janela, ela está me olhando, vamos mais pra lá dona.
Nisso, de outra direção da rua estavam se aproximando duas pessoas, bem vestidas. Ela loira, bonita e grávida e o moço alto, bem vestido e com uma maleta preta nas mãos. E eu pedi a eles se podiam ajudar o “senhor humilde”, pedi a ele para contar sua história ao casal. Ele contou tudo de novo. Aí eu falei do papelzinho que ele portava (que até então eu não havia visto). O moço alto e bem vestido disse que era engenheiro civil, ele pediu p/ver o papel, aí o moço mostrou, era da Mega Sena. O suposto engenheiro disse que ele havia que ir a uma casa lotérica para saber se havia ganho, pois suspeitava que quem o fornecera estava tentando dar um golpe nele. Aí como ele (o engenheiro) disse que morava ali perto, falou também que conhecia o dono da casa lotérica que morava na rua ao lado, se prontificou a ir lá e buscar o resultado da Mega Sena do dia 07 de setembro, concurso 900. Ao voltar, ele mostrou o papel que o “dono da casa lotérica” havia dado a ele, conferimos juntos e eram exatamente os números iguais, dizendo em baixo que o valor do prêmio era de mais de 23 milhões de reais.
Eu fiquei atônita, meio atordoada e falei: moço, esse moço que te deu esse “papelzinho” está enrolando o senhor, o valor ganho não era só de 10 mil reais, é muito mais que isso.
E o casal pareceu espantado. Aí eu falei: como iremos ajudá-lo. Vamos levá-lo à Caixa Econômica agora e falar com Clóvis (o gerente). Mas aí o “senhor humilde” disse que estava sem as documentações, disse que havia deixado no sítio. Só que o “engenheiro”, na hora em que subiu na casa do dono da lotérica, disse que havia ligado também para o gerente da Caixa, e que o mesmo disse que não teria problema nenhum, era só retirar o dinheiro, colocar nos nossos nomes (meu e do suposto engenheiro) e passar em seguida para o nome do “senhor humilde”. Só que aí o “senhor humilde” disse que só faria isso se nós déssemos um voto de confiança a ele, que teríamos que ir ao banco e tirarmos tudo que tínhamos e desse a ele, que o mesmo conferiria na frente do gerente do banco p/ver se tinha mesmo aquele valor. O “senhor humilde” pediu sigilo absoluto do assunto a mim e ao casal, disse que não poderíamos contar a absolutamente ninguém, só depois que ele estivesse com o dinheiro dele, da Mega Sena, nas mãos.
O engenheiro falou que tinha 8 mil reais no Banco do Brasil e que iria na hora tirar p/mostrar sua lealdade. Ele foi, voltou com um envelope pardo recheado de bolos de notas de 100 reais e entregou nas mãos do “senhor humilde”. Ainda o indaguei: o senhor vai fazer isso? Ah, detalhe que esqueci de falar, ganharíamos 100 mil reais cada um (eu e o engenheiro) se o ajudássemos a tirar o dinheiro do banco. E quando indaguei ao engenheiro ele falou: claro que vou tirar meus 8 mil reais, afinal que são 8 mil perante 100 mil que irei ganhar?
Pois bem, aí chegou a minha vez de mostrar fidelidade ao “senhor humilde”. Só que eu estava sem meu cartão de banco, o qual sempre deixo em casa. Um amigo passava de carro, pedi a ele carona p/me trazer em casa p/pegar o cartão. Nisso a mulher que se dizia cunhada do engenheiro, veio comigo. Antes de encontrar meu amigo de carro eu contava para a “Solange” que estava com uma irmã com câncer e que estava a ajudando financeiramente. Ela contou que a mãe dela também estava mal em São Paulo com a mesma doença, e que ela estava sofrendo tanto em ver a mãe daquele jeito que resolveu ficar em Saquarema para não ver tamanho sofrimento, ainda falou: nossa, agora você vai poder ajudar e muito sua irmã com o dinheiro que vai receber. Só que na hora não pensei só nessa irmã minha, pensei nos outros irmãos meus que também precisam de alguma ajuda. Quando chegamos na porta de casa ela também desceu do carro dizendo que queria beber água. Sem maldade a deixei entrar e dei a água a ela e peguei meu cartão rapidinho e minha máquina fotográfica que estava em cima da cama, e saímos. Tirei foto de meu amigo dirigindo o carro dele, para não dizer que queria tirar foto só dela, mas quando virei para tirar foto da “Solange” ela tampou o rosto, disse que estava sem maquiagem e que não gostava de tirar fotos (fiz duas tentativas de tirar foto dela). Meu amigo ainda deu umas voltas no bairro conosco para que conhecêssemos a casa que ele estava construindo ali perto, depois ele nos deixou na porta da Caixa Econômica de Bacaxá.
Fomos, retiramos o dinheiro (mil reais), só que ela insistiu p/pegar meu extrato p/ver quanto ainda havia ficado na Conta Poupança (ela tirou meu extrato e eu nem vi como, talvez com minha senha que ainda estava no caixa eletrônico), um pouco mais de 800 reais, ela queria que eu tirasse tudo, mas só que a máquina trava e não deixa a gente tirar mais que isso, peguei o papel do extrato, amassei e joguei na lixeira do banco. Ela falou, então vamos na boca do caixa. Ao tentarmos entrar (ela foi na frente) algo na bolsa dela não deixava a roleta girar, e ela muito simpática e sorridente, disse aos guardas: só se for meu colar, não tenho nada na bolsa, aí mostrou a barriga dizendo: estou grávida. Só sei que ela conseguiu passar e ainda me disse: viu, quase que bati a barriga na porta. Entrei em seguida, e eu falando tem que pegar senha, ela falou: tenho preferência, pois estou grávida. Aí fui e falei em voz alta: Sr.Carlinhos, grávida tem atendimento prioritário? Ele falou que tinha que falar com a menina do primeiro caixa (da esquerda para a direita), a moça disse que tinha que agendar. Aí como a loira, que se dizia chamar Solange, viu que não conseguiríamos sacar mais nada da minha Conta Poupança, saímos do banco, aí ela lembrou e disse: vamos ali na lotérica que você consegue pegar o restante, aí eu disse que não iria pegar de jeito nenhum, pois o que tinha lá era p/cobrir os cheques que cairiam naquele dia.
Ela falou: agora vamos pegar um táxi, eu perguntei: você vai pagar? Ela falou que sim. Quando o táxi nos deixou perto do Atacadão Oliveira ela me mostrou um bolão de dinheiro que tinha na bolsa, dizia ter ali 1.000 reais, que era p/pagar suas contas, mas que me emprestaria p/dar ao homem, p/ele ver a minha honestidade, pois só mil reais talvez ele não aceitasse, mas aí ela falou: não, não vamos enganá-lo, vamos falar a verdade, vamos falar que você não conseguiu pegar o restante do dinheiro. Ele vai ter que se contentar com os mil reais seus. Ela foi ao orelhão e disse ter ligado para a irmã dela, esposa do suposto engenheiro civil, e pedindo que avisasse a ele que havíamos chegado. Aí ela falou: ah, ela disse que ele tinha acabado de sair de casa e sozinho, aí falei que então o “senhor humilde” não estava mais com ele. Em seguida vieram os dois.
Ela já foi logo chegando e falando: gente, o marido dela não pára de telefonar para ela, ele está preocupado querendo saber onde ela está. Aí ela foi logo falando que eu havia pego somente mil reais. O moço falou: então não vou confiar na senhora não, porque a senhora falou que tinha mais na conta. Nisso o engenheiro me chamou num canto e falou: olha vou levar meu dinheiro lá em casa, vou com minha cunhada, ela fica lá te esperando, a senhora vai lá e pega dois mil reais com minha esposa que já vai estar te aguardando. E eles se foram para a suposta casa que ficava ali pertinho. A sós, o “senhor humilde” me disse que daria 10 mil reais, depois falou: não, vou dar 20 mil reais para a senhora dar ao padre da igreja católica, pois sou católico, para ele dar às pessoas mais pobres e necessitadas. Achei um ato muito nobre da parte dele. Até contei que o Padre Jorge faz sopão e leva aos pobres que moram nos bairros afastados.
Quando ele voltou, sozinho, disse: olha agora a senhora pode deixar o dinheiro com ele e pegar o dinheiro com minha esposa. Ainda fiquei meio pensando: será que isso é um golpe? Pedi um cartão ao engenheiro, ele disse que não tinha nenhum, passando a mão no bolso esquerdo da camisa. E fui subir a rua, ele falou que morava no número 12, no final da rua. Subi. A rua só ia até o número 11, perguntei ao moço que estava saindo da casa sobre o número 12 e ele disse que a casa dele era a última e que não existia o número 12. Desci correndo a ladeira. Quando cheguei lá em baixo não tinha nem mais sombra do “senhor humilde” e nem do “engenheiro”. Corri no orelhão e liguei para o 190, eles vieram rapidamente. Percorremos a área toda e não vimos nem sinal deles. Sumiram todos eles, com os meus mil reais.