Alerta para uso abusivo de medicamentos no Brasil
LAST_UPDATED2 Escrito por Tadeu Assis / Equipe A.R.C.A. Ter, 06 de Abril de 2010 11:13
Uma cliente, de 35 anos, percebeu que estava dependente dos calmantes quando, segundo ela, não conseguia sair de casa sem o remédio, “Agora me sinto ótima, estou com um corpo ótimo, comendo bem, dormindo melhor, lidando com os meus sentimentos, lidando comigo de novo."
A exemplo dos Estados Unidos, onde tem sido frequente a morte de celebridades devido ao uso abusivo de medicamentos, a banalização do consumo de remédios já é um "problema grave" de saúde pública no Brasil. “Tinha medo de pensar em ficar sem. Fiquei desanimada de lutar pelas coisas, muito acomodada”, diz a cliente.
Em todo o mundo, o uso abusivo de remédios já supera o consumo somado de heroína, cocaína e ecstasy, de acordo com relatório do Departamento Internacional de Controle de Narcóticos, ligado à Organização das Nações Unidas (ONU).
Segundo o médico Elisaldo Carlini, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e diretor do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas (Cebrid), no Brasil o uso de calmantes entre estudantes supera o da maconha.
Desde 1987, que eles estão fazendo um levantamento do consumo ilícito de drogas entre estudantes. No último que fizemos, aparecem primeiro o álcool e tabaco. Depois, vêm os inalantes, como cola de sapateiro e fluído de isqueiro, os benzodiazepínicos (calmantes), e depois maconha e anfetaminas (inibidores de apetite). A situação é um desafio para as autoridades de saúde.
É um problema grave no Brasil, eu acho importante abordar essa situação porque, para a saúde pública, as drogas ilegais, legais e prescritas podem apresentar danos comparáveis. Nós sabemos que, de todas as drogas, as mais danosas são duas legais, o álcool e o tabaco. E, entre as que não são ilegais, existe ainda o problema dos medicamentos que podem causar dependência. São três as principais classes de remédios que podem causar dependência: benzodiazepínicos (calmantes), anfetaminas (inibidores de apetite) e opióides (analgésicos).
O grupo dos calmantes é o que mais preocupa a saúde pública atualmente. O aumento do consumo se deve a dois fatores, um bom e um ruim. Tem a questão da ampliação do acesso ao tratamento, o que mostra que mais pessoas estão tendo acesso ao uso racional. E o ruim é que muito provavelmente esse aumento tão significativo se deveu ao uso não racional, ao uso nocivo. A estimativa é de que ainda estamos em fase de crescimento desse consumo.
Os mais perigosos são os opióides, ou seja, os analgésicos fortes, porque o tratamento é mais complexo devido aos efeitos mais graves da abstinência. O grande problema dessas drogas é que elas são altamente tóxicas e podem produzir overdose. A principal causa de intoxicação e morte na Europa é por heroína e morfina. A maior parte dos casos de intoxicação por medicamentos é motivada por tentativa de suicídio. Depois, os acidentes domésticos. Os casos de intoxicação por abuso são poucos, esclareceu, acrescentando que nem sempre as estatísticas comprovam a realidade. Quando aparece [por abuso] são os benzodiazepínicos. Mas os dados que temos são só uma ponta. Tem muitos médicos que não fazem a notificação.
Os benzodiazepínicos deixam à pessoa grogue. As pessoas ficam mais calmas, dormem mais do que devem e têm dificuldade de exercer funções psicomotoras de precisão, como dirigir um automóvel.
Especialistas destacam que a dependência em medicamentos também é favorecida pelo comportamento de profissionais que atendem nos consultórios.
Estou cansado de ouvir mulheres que tomam antidepressivos prescritos por seus ginecologistas. As pessoas vão procurar remédios médicos para emagrecer e saem com fórmulas que têm ansiolíticos e outras substâncias que interferem no funcionamento psíquico, os médicos que fazem atendimentos rápidos para prescrever a medicação também erram. Dá muito trabalho acertar o medicamento na dose certa para a necessidade de uma pessoa específica. Esse é um processo que dura muito tempo. O início do uso de um psicotrópico é difícil, o médico tem que ter uma formação, uma atualização permanente. Isso dá muito trabalho. Não é todo médico que está disposto, e não é todo médico que está bem informado.
Por outro lado a dependência ocorre muitas vezes porque o paciente não segue as recomendações. Geralmente, o abuso de remédios começa com uma situação que o próprio médico passa ou um familiar começa a fazer uso, e aí o marido ou a esposa começa a usar, mas não de uma forma médica, de uma forma própria. É uma expectativa milagrosa, uma expectativa mágica sobre o remédio. Os pacientes não têm paciência em tomar [da forma correta], em ter outras condutas, em ter alternativas que possam ser mais naturais, como terapia, exercícios, namoro.
Qualquer um compra uma receita ou remédio em qualquer canto. Na internet, pode-se comprar remédio controlado, qualquer tipo de medicação. Existem também profissionais negligentes, que vendem receita sem acompanhar o paciente.
As pessoas que migram das drogas ilícitas para as lícitas para serem mais aceitas. Como a droga lícita é aceita pela sociedade, tem muita gente que migra para ela por uma questão de aceitação social. Ela não é estigmatizada socialmente. Um estudante de medicina viciado em dolantina, por exemplo.
Não se pode considerar o remédio um "vilão". Não podemos sacrificar o remédio, pois há muitos pacientes que precisam deles, como os que sofrem de esquizofrenia. O remédio não é o vilão. O vilão é o mau uso do remédio.
Existem três saídas para amenizar o problema: conscientizar a população, capacitar o médico e controlar melhor a propaganda que as indústrias fazem para os médicos e que acabam, na avaliação dele, influenciando na prescrição dos remédios.
O governo tem contato direto com as associações médicas, e, na área dos benzodiazepínicos, por exemplo, a sociedade de psiquiatria preza a questão da formação continuada dos médicos. Uma força contrária que é a indústria farmacêutica tem influência sobre os profissionais, o que vai um pouco à contramão do uso racional. Já há controle da propaganda por parte da Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária], mas precisa ser aperfeiçoado. O ministério defende um controle maior sobre os métodos de propaganda da indústria farmacêutica.
A decisão da prescrição de um medicamento é ato soberano do profissional da saúde e ela está balizada pelos compromissos éticos deste profissional com seus pacientes e a comunidade. Então médicos façam a sua parte.
Tadeu Assis é Técnico em Dependência química.
--
Equipe A.R.C.A.
Capacitação, Prevenção e Tratamento
em Dependência Química - 12 passos
Tel.: (22) 2643.9399



