A cultura que se constrói sob a lona
LAST_UPDATED2 Escrito por Camilo Mota Sex, 03 de Fevereiro de 2012 10:57

A Lona Cultural montada pela Prefeitura de Saquarema no canto da Praia da Vila trouxe uma nova vitalidade aos finais de tarde de verão, através do projeto desenvolvido à s sextas e domingos, com oficinas de arte, contação de histórias, animação dançante e shows. Ainda que no inÃcio de janeiro houvesse um tanto de falta de organização, o projeto foi ganhando corpo e se fortalecendo, atraindo um público bastante variado, superando assim as adversidades iniciais. Nisso, Cleber Santos (Binho) e Kelle Figueiredo, que estavam representando ali o poder público, conseguiram segurar a onda, na medida de suas possibilidades. E nem a chuva e o mau tempo foram obstáculos nalguns dias, tendo a persistência dos artistas sendo colocada à prova para atender à s crianças que chegavam para aulas de pintura oferecidas pelo CÃrculo ArtÃstico e Cultural de Saquarema (Cacs), sob a coordenação de Telma Cavalcanti, por exemplo.
Mas quando a coisa começa a caminhar e se fortalecer, recebemos a notÃcia de que o projeto estaria acontecendo somente no mês de janeiro. Uma campanha de artistas e articuladores culturais chegou a ser ensaiada nas redes sociais, com a finalidade de sensibilizar os que detêm o poder de dizer "sim" ou "não" à continuidade do projeto. Mas até o fechamento desta edição do Jornal Poiésis, ainda não havia qualquer sinal positivo por parte da Prefeitura. Em nosso entendimento, as secretarias de Educação e Cultura e de Turismo, Esporte e Lazer precisam demonstrar um posicionamento claro sobre o que realmente pretendem em termos de cultura e arte ao oferecer o espaço da Lona Cultural para a população e aos visitantes da cidade, não só na época do verão, mas também na chamada baixa temporada. Com um mês de atividades e mais onze de silêncio não se pode construir muita coisa.
Quando dizemos posicionamento claro, queremos abrir um questionamento sobre valores, atitudes, duração, projeções e, enfim, vontade polÃtica no campo das ações culturais que podem ser proporcionadas inicialmente pelo poder público. Não se trata de a Prefeitura proporcionar lazer o tempo todo. O que se está propondo aqui é um esclarecimento (e um posicionamento) sobre as reais finalidades da arte e da cultura na formação do cidadão. E neste tocante, o poder público ainda tem um papel fundamental. Ao gerir um projeto como o da Lona Cultural, está se criando um meio de proporcionar à s pessoas não só lazer (como a dança oferecida como meio de divertimento durante a programação), mas acesso a bens imateriais que levam à transformação do indivÃduo no contexto de sua própria existência em sociedade. As apresentações do Grupo de Teatro Marinheiros do Sol, por exemplo, levaram para as crianças conceitos e expressões lúdicas riquÃssimas sobre vida, amizade, meio ambiente e valores humanos. Os shows musicais aliaram divertimento e cultura de maneira harmoniosa, abrindo espaço tanto para grupos locais quanto para de outros municÃpios, o que também deve ser valorizado como forma de intercâmbio saudável de culturas. A prática de tai chi chuan abre um novo campo de visão de mundo. O que incomoda, no entanto, é justamente a falta de continuidade, de duração, o que deixa transparecer que não há uma linha definida de polÃtica cultural no municÃpio.
A falta de uma polÃtica cultural também é de responsabilidade dos próprios artistas e da comunidade. Muitas vezes assistimos a crÃticas diversas feitas à administração municipal, mas as crÃticas acabam não sendo acompanhadas de ação, de defesa real dos interesses públicos, de abordagens criativas e que gerem novos conteúdos. Há, de certa forma, uma falta de diálogo em todos os nÃveis. A administração pública não consegue se articular para chamar os artistas e produtores culturais para construir um projeto comum, e estes também se veem muitas vezes alijados do processo, sem ver com clareza em que medida podem exercer sua influência no jogo da construção de uma sociedade em que arte e cultura sejam valorizadas como bem comum, como construção coletiva de uma sociedade em transformação.
Estamos todos sob a lona. O espaço é comum e coletivo. Importante nesta hora abrir os olhos para enxergar com clareza o que estamos realmente construindo e o que estamos fazendo para que esta construção não seja obliterada pelo comodismo, pelo silêncio taciturno, pela crÃtica vazia. É preciso, ainda, ter em mente que o ano eleitoral não deve servir de parâmetro para julgamentos que transcendem a visão de mundo que podemos construir juntos. A Lona Cultural está à espera de uma resposta ativa. Que a arte triunfe é o que desejamos.
Camilo Mota é editor do Jornal Poiésis, terapeuta holÃstico e articulador cultural no projeto Poesia na Rua do Núcleo de Poesia Alberto de Oliveira.







